SERVIÇO EDUCATIVO,
ASSESSORIA AO PROFESSOR
Aula do Mês - Agosto de 2006
VÍTOR MEIRELES DE LIMA
Florianópolis, Santa Catarina, 1832 – Rio de Janeiro, 1903
A Obra
Moema
Óleo sobre tela, 129 X 190 cm, 1866
Acervo do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand MASP.
A obra, como informa por carta, em 1967 Donato Mello Júnior “tem uma história dolorosa... Esteve na Pinacoteca da Escola Nacional de Belas-Artes até outubro de 1929, quando foi retirada porque o Governo não achou nunca alguns contos para comprá-la. No Museu Nacional de Belas- Artes (que é de 1937) nunca esteve exposta”, contrariando a informação que constava dos dados do catálogo do MASP de 1963.
É ainda Mello Júnior que informa que já em 1866 o diretor da Academia de Belas-Artes, Conselheiro Tomás Gomes dos Santos, comentava: “Obra de maior valor, porque reúne em grau muito subido todas as qualidades da grande pintura, é a Moema do Sr. Vítor Meireles de Lima. Desenho, colorido, transparência aérea, efeitos de luz, perspectiva, exata imitação da natureza em seus mais belos aspectos, elevam esta composição magistral à categoria de um original de grande preço. O assunto, todo nacional, é uma das nossas lendas mais tocantes”.
Ele se refere a Diogo Álvares, aclamado pelos índios como o Caramuru ou “Filho do Trovão”, conquistador que volta à Europa de navio com sua esposa indígena, Paraguaçu, deixando no Brasil várias outras apaixonadas. Algumas delas nadam seguindo o navio e uma entre elas, Moema, perece na tentativa de acompanhar a nau.
Meireles, com um olhar romântico, retrata o corpo da jovem, deitado à beira do mar, numa pose sensual, com a tanga presa apenas a um dos lados dos quadris, a perna esquerda apoiada numa rocha e os cabelos soltos espalhados na areia. O mar aparece difusamente por detrás e, ao longe, percebe-se a mata, onde sobressaem algumas árvores e palmeiras. A figura bem desenhada demonstra a maestria de Meireles, que também pode ser vista no desenho preparatório conservado no Museu Nacional de Belas-Artes.
Conforme aponta Coli, o agudo crítico Gonzaga-Duque assim comemora a obra em 1867:
“... pintou com muito delicadeza a “Moema” posto que sem verdade, mas cingindo-se ao ideal de seu tempo, às aspirações artísticas de sua época. Digo sem respeito à verdade porque para uma afogada cuspida à praia, as formas da índia estão demasiado macias e a cor ainda é muito quente...”
Coli, traçando um paralelo entre a obra e o poema de Charles Baudelaire, La chevelure, assim analisa a obra:
“Da mórbida necrofilia à úmida e negra medusa dos cabelos, perfumada por odores tropicais saturados de óleo de coco; da água acariciante à ambígua imobilidade do corpo soberbo, uma sensualidade perpassa pelo poema e pela imagem. Moema concentra fortes pulsões desabrochadas nas “Flores do Mal”. Estes anos de 1860 insistem no corpo feminino alongado, com as forças abandonadas, exposto, entregue. Corpos ofertos, tomados pela gravidade, inertes como as longas cabeleiras esparramadas. (...) Moema é mais baudelairiana de todas. Nela se encontram os perfumes capitosos das plagas longínquas, a cor acobreada capaz de acionar um erotismo baseado no estranhamento.
Nela o pressuposto do navio que se vai. Nela, ainda, a dádiva do corpo magnífico que é quase um cadáver, o repouso e a morte entrecruzados. (...) Os volumes poderosamente sintéticos, geometrizados, do corpo de Moema, o sombreado definido com poucas transições, o contorno implacável, tornam espiritualizado – não há outra palavra – o insistente tema erótico. (...) A tela conjuga a grande obsessão sensual do tempo, que se repete incansavelmente nas artes internacionais, com o romantismo indianista que se carrega aqui de maresias longínquas. Porque Meireles opera a transfiguração estilística capaz de conduzir a imagem para a fronteira tênue entre a sedução sensível e a beleza da forma”.
O Artista
Inscrito na Academia Imperial de Belas Artes no Rio de Janeiro entre 1847 e 1852, segue os cursos de pintura e de história ministrados por José Correia de Lima. Com São João Batista no Cárcere, obtém bolsa de estudo para uma viagem a Roma, onde estuda com Tomaso Minardi (1787-1871), pintor que aderira ao manifesto purista de Tenerani, Bianchini e Overbeck e que, por sua vez, trabalhara com Felice Giani e em Milão, privara com Andrea Appiani.
O “peruginismo” de Minardi consolidara-se desde a Madona del Rosário, de 1840 (Roma, Gall. Naz. Arte Moderna) e é basicamente este legado neoquatrocentista, além de uma extraordinária técnica de desenhos nus, que Meireles recebeu de Minardi.
Desiludido com a experiência, o artista catarinense ruma, instado por Porto-Alegre, para Paris, onde entra em contato com Andrea Gastaldi, após um rápido contato com Léon Cogniet. Sua grande empresa em Paris é assimilar a complexa cultura salonnarde, tarefa da qual se desincumbe com enorme afinco e que converge para sua obra-prima deste período, A Primeira Missa do Brasil, aceita com elogios no Salon de 1861.
Seu reconhecimento é imediato no Rio, para onde retorna em 1861, tornando-se professor honorário da Academia. Inicia-se ao final deste mesmo decênio a fase das grandes telas relativas à guerra do Paraguai, concluída ao longo de uma segunda estada em Paris, com a exposição do Combate de Riachuelo no Salon de 1833, enquanto já em 1879 produzira-se o enfrentamento no Rio de Janeiro entre sua Batalha dos Guararapes e a Batalha do Avaí, de Pedro Américo, com grande agitação da opinião local.
De meados dos anos 80 até sua morte, em 1903, Meireles consome-se na produção de gigantescas panorâmicas do Rio de Janeiro, a mais importante das quais, terminada em 1888, representou o país na Exposition Universelle de Paris de 1889.
Eugênia Gorini Esmeraldo
Texto extraído do
Catálogo do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand:
Coordenação geral: Luiz Marques
São Paulo: Ed.Prêmio, 1998.