Málaga, 1881 – Mougins (Cannes), 1973
Retrato de Suzanne Bloch
Óleo sobre tela, 65 X 54 cm, 1904
Acervo do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand MASP.
A obra
A exposição promovida em 1994 pelo Musée Picasso de Paris conferiu renovado relevo à figura de Suzanne Bloch, personagem dos círculos freqüentados por Picasso na Paris do início do século. Irmã do violonista Henri Bloch e importante cantora wagneriana, Suzanne Bloch posou no ateliê de Picasso, no número 13 da rue Ravignan, onde fora introduzida por Max Jacob, em finais de 1904. Fruto dessas sessões, talvez tenha sido apenas o desenho a bico de pena com realces de guache, que lhe fez então Picasso (assinado e datado de 1904), conservado na coleção Neubury Coray, em Ascona (Palau i Fabre, apud Camesasca 1987, p. 214). O retrato a óleo nasce, em todo o caso, ainda neste ano de 1904, o último da fase azul, a que ele tão plenamente pertence. Esse retrato caracteriza-se pela emergência de uma reflexão sobre a estrutura plástico-cromática de Cézanne, no âmbito de um “pós-impressionismo, já absorto nos problemas que farão explodir a arte” (Camesasca 1987, p. 215: bibliografia citada no catálogo))
O artista
Esta notícia restringe-se a informações essenciais relativas aos dois decênios iniciais da carreira de Picasso, período que pertencem duas das obras conservadas no MASP. De origem andaluza Picasso, forma-se em Barcelona, onde fixa residência em 1895. A Academia Real de Madri nada tem a lhe ensinar, tal é a sua precocidade, manifesta já nas primeiras obras de 1895.
Embora a Barcelona de Gaudí atentasse então mais para o art nouveau e o expressionismo que para os desenvolvimentos da pintura francesa, Picasso revela-se desde logo sensível a Toulouse Lautrec. Por outro lado, fermentava no ambiente artístico do Café El Quatre Gats, por ele então freqüentado, um interesse renovado por El Greco, por Zurbarán, pela escultura medieval catalã, enfim, por uma cultura visual antiacadêmica e que tendia a interagir com o inconformismo anarquista da cultura política local. Durante os anos de transição entre Barcelona e Paris, os assim chamados anos da “fase azul” (1901-1904), é o Barrio Chino, com seus cabarés e suas prostitutas, o primeiro mundo da pintura de Picasso.
A partir de 1904, Picasso trabalha no Bateau-Lavoir em contato com Max Jacob, Apollinaire, Gertrude Stein, entre outros. Com prodigiosa velocidade, assimila em sua “fase rosa” (1905-1906) estímulos franceses diversos, de Gauguin a Puvis de Chavanne, de Eugène Carrière aos nabis. Mas o interessam sobretudo a escultura grega arcaica,a africana e novamente a catalã medieval, com suas relações “primitivas” entre plano, volume e espaço, que preludiam a obra-prima de 1907, Les Demoiselles d’Avignon (MOMA), e, em geral, o cubismo.
Em meio ao turbilhão de idéias, distingue-se um diálogo mais ponderado com Cézanne, a mais imprescindível mediação entre a tradição francesa e os desenvolvimentos sucessivos da arte de Picasso ao menos até 1909 (Retrato de Clovis Sagot, Hamburgo). Até a Primeira Guerra, a aventura cubista partilhada com Braque e Gris, prolonga-se em meio a episódios de verdadeira abstração. Em 1915, após o arrefecimento do cubismo, Picasso retoma o desenho, dialoga com Ingres e retorna definitivamente à figura (Retrato de Vollard), realizando desde 1916 cenários para Diaghilev no mais estrito estilo figurativo, “deliberadamente passadista”, como então o define Léon Bakst.
Em 1917, Cocteau, persuade Picasso a acompanhá-lo, a Roma para criar os cenários do balé Parade, de Diaghilev, para o qual o próprio Cocteau escrevera o livreto e Satie a música. A colaboração contínua com os ballets russes (Tricorne, 1919, Pulcinella, 1920) nutre o interesse do artista pela arte decorativa que se reflete na série dos Arlequins, pintados em torno de 1920. Também durante esses anos, os da emergência do surrealismo, Picasso oscila entre o imaginário atroz do inconsciente e a permanência do espírito clássico. Tal parece ser, de resto, o movimento pendular que em parte marcará o desenvolvimento ulterior de sua longa atividade.
Texto extraído do
Catálogo do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand:
Coordenação geral: Luiz Marques São Paulo: Ed. Prêmio, 1998.