A obra foi realizada em 1885, originalmente com o título: Zéfiro, e ao ser exposta no Salon de 1897 Rodin mudou o título para Cupido e Psiquê. Em razão do grande sucesso, a obra foi reproduzida em mármore (Metropolitan Museum de Nova York) e posteriormente em bronze por Barbédienne, em cinqüenta exemplares entre 1898 e 1919. Aparentemente, a peça do Masp não pertence a este grupo. Tanto a cópia em mármore quanto as versões em bronze diferem do original do Musée Rodin, no qual a perna e o braço da figura masculina estão apoiados numa extensão da rocha que forma a base.
O Artista
Estudou na Escola Especial de Desenho e Matemática, freqüentando os cursos de escultura e de desenho de H. Lecocq de Boisbaudran. Reprovado no exame de admissão à École des Beaux-Arts, trabalhou como decorador e, de 1864 a 1870, no ateliê do escultor A. Carrier-Belleuse, realizando a decoração plástica do prédio da Bolsa de Bruxelas. Recusado no Salon, viajou em 1875 para a Itália, onde estudou e admirou, sobretudo, a obra de Michelangelo.
Mais tarde escreveu ao amigo escultor Bourdelle: "Michelangelo liberou-me da Academia". Em 1878, expôs no Salon A Idade do Bronze (Londres, Tate Gallery), que foi acusado de ser um molde tirado do modelo vivo. Com São João Batista, realizado com igual realismo, Rodin superou a polêmica e se impôs ao público francês pela extraordinária capacidade de representar os aspectos fugidios da realidade e o movimento. Em 1880, recebeu a encomenda da porta do novo Musée des Arts Décoratifs que, inspirada em temas de Dante, foi chamada Porta do Inferno.
Rodin trabalhou até a morte nesse projeto, nunca terminado, na tentativa de realizar uma grande alegoria do Amor e da Danação, através da representação do nu: uma representação inspirada no Julgamento Final de Michelangelo e nas ilustrações de Gustave Doré e na arte de William Blake. As numerosas figuras, mais de duzentas, idealizadas para a Porta do Inferno, foram freqüentemente retomadas nos grupos e nas esculturas posteriores mais famosas como O Pensador (1880, Paris, Musée du Luxembourg), Os Burgueses de Calais (1884-1888, Paris, Musée Rodin), O Beijo (Londres, Tate Gallery).
Após ter participado da exposição de 1889, a crítica de vanguarda começou a reconhecer a arte de Rodin que, junto com o italiano Medardo Rosso, foi considerado autor da renovação da escultura contemporânea baseada nos princípios da pintura impressionista. Apesar do sucesso no meio da vanguarda, o monumento ao escritor Balzac, no qual Rodin tentou renovar a idéia de monumento público, causou escândalo e foi recusado pela Société des Gens de Lettres que o encomendara, considerado inacabado e indigno.
Obras como Homem que Anda (1877, Nova York, Metropolitan Museum) e Torso (1878, Paris, Petit Palais) condicionaram todos os desdobramentos da escultura contemporânea.
As superfícies tornam-se sensíveis à atmosfera e ao estado de ânimo do artista, evidenciado na gestualidade e na modelagem do material.
Em Rodin, a poética do fragmento e do inacabado, assim como sua retomada sistemática de Michelangelo, foram fundamentais para todos os grandes escultores modernos, de Maillol a Brancusi, de Moore a Giacometti.
Rodin foi também um extraordinário desenhista, e seus desenhos e aquarelas, em particular os dedicados a dançarinas cambojanas, estão entre as obras mais sugestivas da arte pós-impressionista.
Luciano Migliaccio
Texto extraído do
Catálogo do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand: Arte Francesa
Coordenação geral: Luiz Marques
São Paulo: Ed. Prêmio, 1998.