SERVIÇO EDUCATIVO,
CURSO INTRODUTÓRIO À HISTÓRIA DA ARTE A PARTIR DA COLEÇÃO DO MASP
Aula do Mês - Fevereiro de 2007
RAFFAELLO SANZIO
Urbino, 1483 - Roma, 1520
Ressurreição de Cristo
Óleo sobre madeira, 52 X 44 cm, 1499-1502.
Acervo do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand
MASP.
Obra
A Ressurreição de Cristo, também conhecida
como Ressurreição Kinnaird, é
provável elemento de uma predella desconhecida Camesasca
1987, p. 74). Adquirida pelo Masp em 1954, às
vésperas de suas exposições itinerantes pela
Europa e pelos Estados Unidos, mas incorporada ao acervo do Museu
somente em 1958, a obra tem sido objeto de intenso debate,
notadamente sobre sua atribuição, sobretudo desde
1954. No centro da polêmica, está a
relação entre esta obra e dois desenhos (Ashmolean
Museum, Oxford, p. 505 e p. 506) atribuídos a Rafael por
Robinson (1870) e desde então pela totalidade da
literatura, com exceção de Morelli e Fischel. De
início, estes desenhos foram considerados estudos
preparatórios para Ressurreição encomendada
a Perugino pela igreja de San Francesco al Prato em Perugia
(Musei Vaticani), para a qual Rafael teria, segundo o comum
juízo, extensamente colaborado. De qualquer modo, estes
desenhos foram datados de 1502-1503 por De Vecchi, Dusler,
Oberhuber, Ferino-Pagden, Joannides, Gere & Turner, e outros,
enquanto Cuzin e Camesasca datam-nos de 1499-1500.
Em 1880, Wilhelm von Bode notifica sua existência a
Cavalcaselle, que, não a conhecendo, não toma
partido quanto à atribuição. Já
Gnoli, em 1921, sugeria o nome de Mariano di Ser Eusterio
(1470-1547?), mas retira-o em 1923. Um dos mais positivos
argumentos neste debate sobre atribuição foi
apresentado por Regterem Van Altena, que em uma
comunicação oral (1927) a Fischel, finalmente
relacionou os dois desenhos Ashmolean à
Ressurreição Kinnaird. Vários estudiosos,
incluindo Dussler, Beccherucci e Fischel, argumentaram que os
desenhos haviam servido às duas
Ressurreições (Masp e Vaticano). Outros estudiosos
(de Popham e Parker a Longhi, De Vecchi e outros) consideram os
desenhos Ashmolean desenhos preliminares apenas para a
Ressurreição Kinnaird. Quando da
exposição na Tate Gallery, em Londres, Bardi
assumiu a responsabilidade de incorporar a peça
recém-adquirida (1954) ao corpus das obras de Rafael,
sendo imediatamente seguido por Longhi (1954) e Ragghianti
(1954). A atribuição foi aceita por Suida e
confirmada por Longhi (1955), que, entre outras
considerações, vinculou a obra do Masp ao
retábulo de San Nicola da Tolentino (primeira encomenda
documentada de Rafael em 1500), devido às similaridades
intercorrentes entre a assim chamada Madalena da
Ressurreição Masp e a Virgem do referido
retábulo. Após Longhi, a obra foi atribuida a
Rafael, com mais ou menos convicção, por Parker,
Dussler, Beccherucci, Forlani Tempesti, Volpe, Bologna, Gregori,
Teza, M.G.Ciardi Dupré, A.M. Brizio, P.L. De Vecchi,
Camesasca, Carvalho Magalhães and Ferino-Pagden (1997,
confirmada em comunicação oral). A
atribuição foi aceita cautelosamente por
Marabottini e por Cuzin. Segundo este último:"le
tableautin semble, plus qu'une leçon qui lui serait
donnée. En effet la force et la délicatesse de la
mise en place des quatre soldats laissent loin en arrière
les figures mannequinées de Pinturicchio et ne trouvent
pas de répondant chez les peintres contemporains, sauf,
peut-être, chez Signorelli. La Résurrection de
São Paulo apparaít comme une sorte de
synthèse, le résumé-bijou de tout ce que la
peinture de la fin du Xve siècle pouvait offrir de plus
séduisant pour un adolescent; avec ine science du dessin
et une intelligence de l'espace sans précédent
à l'intérieur du milieu ombrien". Para Knab (1983,
p. 58); "Questa piccola tavola non sembra essere di un'unica
mano; oltre alle guardie già descritte, anche la figura
del Risorto fa pensare a Raffaello". Mas a
atribuição foi definidamente negada por Wagner,
Gere & Turner, Oberhuber e Joannides, que atribuem a pintura a um
artista anônimo, trabalhando a partir de um desenho de
Rafael.
O debate crítico relativo `Ressurreição do
Masp, fundado nos desenhos Ashmolean e, portanto, na
possibilidade de participação de Rafael em obras de
Perugino, traz à tona não somente a proximidade da
obra de Rafael com a Ressurreição Vaticana, mas
também com outras obras de matriz peruginiana: a predella
(Ressurreição de Cristo) do políptico da
Ascensão de Cristo ( Museu de Rouen) e a
Ressurreição de Londres (coleção
particular), mencionada por W.von Suida (1955). Embora a
Ressurreição em questão pertença
indubitavelmente a esse grupo de obras, ela apresenta em
relação a ele características singulares,
seja na construção individual das figuras, seja na
orquestração de seus elementos, o que leva Fontana
(1987) e Cuzin (1983) a projetá-la para além do
universo peruginiano. O acorde interno entre as personagens,
não obstante a pequena escala delas, dilata a
composição que, somada à graça no
desenho, traduz uma original modulação
rítmica e um novo sentido espacial. Esta singular
capacidade de orquestração espacial é
também evidenciada individualmente nas figuras. O
guardião da direita, em pé, retomado do desenho
Ashmolean, descreve um gracioso rodopio ascendente. Essa
definição espacial é alcançada com o
deslocamento da perna da personagem para trás, movimento
que encontra ressonância no alçar do braço
oposto e na rotação da cabeça. Trata-se de
uma qualidade essencialmente coreográfica já
evidente no "carrasco" da predella Raleigh (O Milagre de
São Jerônimo que Salva Silvano e Pune Sabiniano,
North Carolina Museum of Art), posteriormente desenvolvida no
São Miguel Arcanjo (Louvre, Paris) e maximizada na figura
de "Heliodoro" (Expulsão de Heliodoro do Templo, Stanza di
Eliodoro, Vaticano, Roma). A preocupação com o
ponto de equilíbrio figura-espaço circundante,
traduzida em uma leve e graciosa estrutura estelar, é uma
qualidade tipicamente rafaelesca, alheia ao universo
úmbrio, como alheia a esse universo é também
a pronunciada perspectiva da tumba e, enfim, a
orquestração espacial da obra.
À luz dos estudos recentes, evidencia-se que a obra
reflete algum conhecimento do ambiente florentino. Camesasca
(1987) enfatiza a afinidade entre o Cristo da
Ressurreição do Masp e o de Luca Della Robbia no
Duomo de Florença, por sua vez inspirado na
Ressurreição Careggi (Bargello, Florença),
atribuído ao ateliê de Verrocchio. Também os
Anjos da obra do Masp pareceriam exibir uma certa
semelhança com dois modelos em terracota de um artista do
círculo de Verrocchio (Louvre) - em um dos quais
cogita-se, inclusive, a intervenção de Leonardo - e
com os Anjos em pleno vôo do retábulo da sala degli
Otto, de Filippino Lippi (Uffizi). Dal Pogetto (1987) acredita
ser possível concluir que já por volta de 1500 o
universo de Rafael fosse "rico de experiências muito mais
vastas e complexas que os exemplos estreitamente peruginescos,
aos quais alguns gostariam de restringir sua
formação", acrescentando que "faz-se
necessário pressupor o conhecimento, por parte de Rafael,
de uma alternativa, ou seja, de uma arte tendente ao movimento,
como a florentina". A obra do Masp parece ser uma das primeiras
nas quais esse vínculo se manifesta. Trata-se, entretanto,
não somente de influxo florentino, mas da
coexistência dessa tradição com a
poética de Perugino e de Pinturicchio, esta última
assinalada no tratamento decorativo do painel, no qual se
privilegiam cores fortes e brilhantes, assim como na
presença de ornamentos nas armaduras dos soldados, na
tampa do sarcófago e na granulação luminosa
das árvores. A propósito dessa influência,
Suida (1955) decifra uma das inscrições que se
encontram no verso da Ressurreição, reconhecendo no
nome "Gioacchino Mignanelli" o primeiro proprietário da
obra, provável membro de uma importante família
sienense. A inscrição, portanto, vincularia o
painel do Masp a Siena, onde justamente Pinturicchio dirigia a
decoração do afresco da Libreria Piccolomini.
A obra do Masp suscita também uma discussão sobre
sua datação. A ênfase nas
relações com Pinturicchio faria com que Longhi
(1955), seguido de De Vecchi (1981), antecipasse a data da
Ressurreição inicialmente proposta por Suida
(1955), de 1502-1503 para 1501-1502. O vínculo
úmbrio também é evocado por Camesasca
(1987), que, inserindo-a em âmbito notadamente peruginiano,
data-a de 1499-1500. Mais uma vez, uma referência basilar
sobre a poética rafaelesca encontra-se em Vasari (1568),
para quem Rafael é capaz de unificar diversas
tradições coexistentes, ao " captar, mediante um
modo intermediário de fazer tanto o desenho quanto o
colorido, aquilo que lhe convém, segundo sua necessidade e
capricho. Misturando com esse modo alguns outros, que advêm
das mais altas realizações de outros mestres, fez
de muitas maneiras somente uma, a qual foi sempre tida como
propriamente sua". Juliana Barone e Luiz Marques
O Artista
Filho de Giovanni Santi (Sanzio é a sua forma latinizada),
modesto pintor da corte de Urbino, é possível que
sua iniciação artística tenha transcorrido
sob a supervisão paterna. Contrariamente à regra,
já aos 17 anos Rafael é precocemente tratado como
magister (mestre) no contrato para um retábulo destinado
à Citta di Castello ( S. Nicola da Tolentino, 1500 ),
atualmente reduzido a quatro fragmentos. Segundo Camesasca, ele
pôde neste momento já ter pintado a
Ressurreição do Masp. Nesta época, Rafael
encontra-se associado ao pintor Evangelista da Pian di Meleto,
prática que se verifica também com Perugino (Pietro
Vanucci) e Pinturicchio (Bernardino de Betto), dentre outros.
Até 1504, data em que o jovem artista transfere-se para
Florença (1504-1508), sua produção gravita
entre Urbino, Città di Castello e Siena. Segundo Vasari:"o
Papa Pio II encomendara a Pinturicchio a decoração
da Biblioteca do Duomo de Siena. Amigo e conhecedor de sua
excelência como desenhista, Pinturicchio levou-o a Siena,
onde Rafael fez para ele desenhos e cartões para aquela
obra. Verifica-se então um breve colóquio com o
decorativismo pictórico de Pinturicchio, já
assinalado por Roberto Longhi (1976) acerca da
Ressurreição do Masp. Também Perugino seria
determinante na configuração da poética
juvenil de Rafael, o que não escapa a Vasari (1568), para
quem a formação úmbria do pintor é
assaz patente: "estudando Rafael a maneira de Perugino, imitou-a
tão precisamente e em tantas coisas, que não se
reconheciam seus retratos dos de seu mestre, e, com
segurança, não se dicerniam suas
realizações das de Perugina". Cavalcaselle (1884)
observa que, no final do século, as obras de Perugino
adquirem mais sentimento, candura e expressão, e seu
desenho, não perdendo em força, possui mais
graça. Essas qualidades marcariam o início de um
processo longo e quase imperceptível, no qual se revela a
presença de Rafael juvenil no ateliê de Perugino.
Longhi (1976) procura discernir a participação
pontual de Rafael em obras de Perugino. Constata a mão do
jovem artista na Natividade da Virgem (predella de um
retábulo encomendado a Perugino para a igreja de Santa
Maria Nuova, Fano), uma "quase emulsão poética com
o punho vacilante de Perugino". Finalmente, após uma
decisiva estada em Florença, Rafael transfere-se em 1508
para a corte de Júlio II, onde é encarregado da
realização de um dos dois maiores ciclos picturais
de então, a decoração dos apartamentos
papais no Vaticano (1508-1520), contemporânea à
redecoração da Capela Sistina, confiada a
Michelangelo (1508-1512). Neste momento de maturidade,
consolida-se a separação de sua primeira
formação úmbria, iniciada no contato com
Andrea Verrocchio, Luca della Robbia, Signorelli, Filippo Lippi e
Leonardo da Vinci, durante sua estada florentina e aprofundada
durante sua estada romana (1508-1520) sob o impacto dos afrescos
de Michelangelo.
Texto extraído do
Catálogo do Museu de Arte de São Paulo Assis
Chateaubriand: Arte Italiana
Coordenação geral: Luiz Marques
São Paulo:Ed. Prêmio, 1998.