SERVIÇO EDUCATIVO,
CURSO INTRODUTÓRIO À HISTÓRIA DA ARTE A PARTIR DA COLEÇÃO DO MASP
Aula do Mês - Junho de 2007
GIOVANNI ANTONIO PELLEGRINI
Veneza, 1675 -1741
A Rainha Tômiris
Óleo sobre tela, 123 X 97cm., 1719 -1720
Acervo do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand MASP.
Obra
O tema baseia-se em uma passagem de Heródoto (I, pp. 205-214). Em meados do século VI a.C., Tômiris é a rainha dos massagetas, povo seminômade de origem iraniana que ameaçava a fronteira nordeste do império persa, entre o mar Cáspio e os Urais, e cuja reputação de ferocidade é mencionada pelo historiador grego. Tômiris teve seu exército parcialmente aniquilado por Ciro II, o Grande, o qual foi ulteriormente derrotado por ela em uma catastrófica batalha. Conforme a mesma narrativa, para se vingar da morte do filho, prisioneiro de Ciro, Tômiris cumpriu o juramento de afogar em sangue humano a cabeça do conquistador persa (529 a.C.). O quadro do Masp representa a rainha oriental com os seios descobertos, em conformidade com o apelo erótico que exerce sobre o imaginário setecentista a licentia dos antigos impérios orientais. Tômiris é representada no momento em que recebe de um escravo o elmo do rei persa, uma delicada metonímia, própria de um gosto que não se deixa mais seduzir pelo culto do horrendo, legado pelo século de Ribera e Langetti. Para além de seu erotismo e de seu poder evocador de um oriente fascinante, a fábula histórica devia paradoxalmente evocar conotações morais, como o heroísmo feminino e a vitória sobre a prepotência.
A atribuição da obra a Pellegrini é de Roberto Longhi (carta a P. M. Bardi, de 20/6/1947): "a terna heroína desta sua tela, provavelmente a `Rainha Tômiris', é até hoje a coisa mais encantadora que eu tenho encontrado do setecentista veneziano Giovanni Antonio Pellegrini. Sobre a importância de Pellegrini (...) como precursor do melhor `dix-huitième' francês, fiz recentemente algumas observações em meu `Viatico per 5 secoli di pittura veneziana'. Lamento não haver conhecido em tempo esta pintura porque tê-la-ia com prazer publicado como o exemplo mais convincente desta precedência. Esta sensualíssima figura com empasto de leite e rosas foi de fato pintada quando Boucher e Fragonard não haviam ainda aparecido sobre a cena artística. Um confronto com as telas de sobreportas da Galeria Schónborn, em Pommersfelden na Baviera, pintados entre 1720 e 1725, demonstra que o seu quadro pode se situar por volta dos mesmos anos".
Pallucchini (1960) e Bettagno (carta a P. M. Bardi, de 12/10/ 1954) dataram a obra dos mesmos anos. Segundo Pallucchini, a obra, "de grande efeito, realizada quase com temeridade mediante uma pincelada solta, jogada", (...) "pode pertencer ao segundo período inglês do pintor" (1719-1720), período ocasionado por encomendas para a manor de Lord William Cadogan (1675-1726), o qual, após uma afortunada reabilitação sob o governo do rei George I, acabava de ser nomeado 1°- Conde Cadogan, Visconde Caversham e Barão Cadogan de Oakley. Nascida dessa oportunidade, a Rainha Tômiris do Masp proviria assim originariamente dessa célebre coleção Cadogan.
O Artista
Mais que os Tiepolo, Canaletto e Rosalba Carriera, Pellegrini é decerto 0 pintor que melhor expressa, por seu estilo e biografia, o triunfo do Setecentos veneziano nas cortes européias e o conseqüente caráter internacional do emergente style nouveau, como foi chamado por volta de 1730 o rococó. De origem paduana, foi discípulo do pintor lombardo Paolo Pagani (morto em 1716), embora sua pintura remonte sobretudo aos Liberi, a Sebastiano Ricci (1659-174) e à última fase de Luca Giordano, em Veneza, em 1653. A respeito dessas fontes, Longhi (1946) nota como Pellegrini "sabe encontrar melhor seus limites, que eram entender quantas aberturas à arietta' setecentista havia nas últimas e fluídas imaginações de Luca Giordano ".
As primeiras obras conhecidas de Pellegrini são de 1701 e foram executadas para a Scuola del Cristo, em Veneza, talvez logo após sua viagem de juventude a Roma. Segundo Walpole, Pellegrini chega a Londres em 1708, com Marco Ricci, ambos provavelmente incumbidos de realizar cenografias para o teatro., já em 1709-1710, recebe pagamentos pelas decorações do Kimbolton Castle e do Howard Castle, para cujos proprietários realiza também retratos de família e um interno, um dos quais o admirável Retrato das Filhas do Conde de Carlisle ao Cravo, ainda in situ. Comparando a arguta leveza desta obra à "compassada aulicidade dos retratos contemporâneos de Nicolas de Largillière" (1656-1746), Pallucchini (1960p. 19, fig. 29) observa que "o próprio Hogarth meditará com o mais vivo benefício, sobre os exemplos tão profundamente novos e audazes" do pintor veneziano. Nesta primeira estada em Londres, Pellegrini realiza ainda um terceiro grande ciclo decorativo-mitológico, em Narford Hall (Norfolk), considerado por Watson (1954) como "o mais perfeito exemplo de um interno veneziano deixado na Inglaterra".
Em fins de 1713, Pellegrini deixa a Inglaterra e passa ao serviço do príncipe-eleitor palatino Johannes Wilhelm, em cujo castelo de Bensberg, em Düsseldorf, cria um ciclo decorativo alegórico em honra do príncipe, hoje conservado no Castelo de Schleissheim, na Baviera, fundamental, sempre segundo Pallucchini, para a compreensão de seu estilo maduro, basicamente próximo do de Marco Ricci (1676-170), porém mais puramente pictórico e tonalizado em gamas claras, prateadas, espumantes, de uma extraordinária delicadeza, quase de pastel. Sucedem-se, após Bensberg, estadas várias no norte da Alemanha e nos Países Baixos, particularmente na Antuérpia, onde pinta os Quatro Elementos, para a guilda dos cervejeiros da cidade. Torna-se em seguida membro da guilda dos pintores de Haia, retornando à Inglaterra em 1719, a chamado do famoso Lord William Cadogan (1675-1726) para decorar sua casa de campo e para a qual possivelmente Pellegrini pinta o quadro do Masp (Pallucchini 1960, p. 20).
Já no ano seguinte, em Paris, como hóspede de sua cunhada Rosalba Carriera, Pellegrini executa afrescos para o Banque Royale, sob as ordens do duque de Orléans, regente de França. "Trabalhou ali por oitenta manhãs" relata Zanetti (1771), enquanto o grande Mariette comenta aturdido (apud Pallucchini): "c'étoit un practicien que entreprenoit de peindre un vaste plafond comme un autre aurait fait un petit tableau de chevalet. Il ne savoit pas ce que c'étoit que de consulter la nature, tant pour les formes que pour les couleurs" (era um prático que se lançava à empresa de pintar um enorme forro como um outro teria feito um quadrinho de cavalete. Não sabia o que era consultar a natureza, seja nas formas, seja nas cores). Como bem advertiu Longhi (1946), tal decoração, mais tarde destruída, haveria de ser `provavelmente decisiva para o gosto do Setecentos francês ". E notadamente para Boucher, para Jean François de Troy e para todos os decoradores daquele tempo, completa Pallucchini.
Outras viagens continuarão a pontuar a carreira do pintor, até sua velhice: a Veneza, novamente a Paris, de novo para Pádua, Mannheim e outras cidades, nas quais a pintura não deixou jamais de sofrer uma inflexão importante após a passagem do artista.