SERVIÇO EDUCATIVO,

ASSESSORIA AO PROFESSOR

Aula do Mês - Junho de 2008

FRANS HALS
Antuérpia, 1581/84 - Haarlem, 1666




Oficial Sentado
Óleo sobre tela, 88 x 66 cm, 1631
Acervo do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand MASP.

A Obra

A obra retrata um oficial ou um suboficial não identificado, muito provavelmente de uma milícia de Haarlem, como a dos arcabuzeiros de Santo Adriano, à qual pertencia também Andries van Hoorn, modelo de outro retrato de Hals, no Masp. A data à direita, originalmente considerada 1637, conforme atesta a documentação do museu, revelou-se ser de 1631, após uma limpeza efetuada antes de 1988. A superposição de datas, assim como o caráter rarefeito da matéria, não deixa de suscitar alguma interrogação sobre a real condição da obra, empobrecida provavelmente por uma limpeza excessiva, embora não seja descartável a hipótese de que não tenha sido terminada. Malgrado a precariedade de todo o juízo sobre uma obra com visibilidade tão incerta, é interessante observar que a data de 1631 parece de qualquer modo convir melhor. O caráter mais expeditivo e quebradiço da pincelada, as formas mais esboçadas, as tonalidades mais surdas e mais ton sur ton com que o pintor constrói a figura, aproximam a obra do Masp de Menina Pescadora (coleção privada, Nova York) que Slive (1989, n.35) data de 1630-1632. Entretanto, a obra requer exames mais detidos que forneçam subsídios para as respostas das questões aqui levantadas.

O Artista

Perdido o documento de batismo, ignora-se a data precisa do nascimento de Frans, filho de Franchoys Hals, tecelão, e de Adriaentgen van Gaertenrijk, de Antuérpia. Já em 1585, contudo, a família ruma para Haarlem, fugindo à tomada de Antuérpia pelas tropas espanholas e aos subseqüentes massacres religiosos que custaram à cidade quase a metade de sua população. Com sua indústria têxtil florescente, Haarlem é uma atração irresistível para um tecelão como Franchoys. Em sua pátria de adoção, Frans parece ter sido instruído em pintura por Carel van Mander (1548-1606), artista mais conhecido por seu vasariano Schilderboek (Livro da pintura, Alkmaar, 1604), que por seu modesto ecletismo à maneira de Spranger. Em todo o caso, um tal aprendizado, se ocorrido, dá-se antes de 1604, data em que Van Mander transfere-se para Amsterdã. Em 1610, Frans Hals, com idade entre 26 e 29 anos, é enfim artista inscrito na guilda de Haarlem, sendo seu primeiro quadro datado, hoje conhecido, de 1611, o retrato do arquidiácono Jacobus Zaffius. Cinco anos depois, Hals realiza seu primeiro retrato de grupo, Oficiais da Milícia de São Jorge. Estes dois gêneros tão diferentes - o retrato individual e o retrato de grupo - balizarão cada um, segundo suas leis, toda a obra de Hals.

O retrato de grupo com oficiais de uma guarda civil, dirigentes de um asilo filantrópico ou simplesmente uma família em um externo, embora geralmente cultivado na arte holandesa do século XVII, torna-se por excelência o gênero de Hals. Isto não apenas por dele se conhecerem pelo menos onze exemplares de excepcionais dimensões, distribuídos ao longo dos anos 1616-1664 - verdadeiras mises-en-scène da estrutura e da vida social de uma sociedade -, mas porque é em tais escalas que melhor se vislumbram alguns elementos fundamentais de sua poética, notadamente os encadeamentos rítmicos, a distribuição dos valores dinâmicos, o senso da variedade compositiva e psicológica, a atmosfera emocional e, sobretudo, o interesse crescente pelas faculdades construtivas e emotivas dos grandes vazios imersos em negro.

O retrato individual percorre, em Hals, uma trajetória naturalmente paralela, mas nele se revelam talvez de maneira mais precisa certas inflexões sutis das relações ideológicas e afetivas entre o pintor e seu modelo, captando mudanças importantes sobrevindas na imagem de si do retratado. Neste sentido, os dois retratos do casal Van Hoorn, do Masp, são particularmente instrutivos, em razão do momento em que incidem na carreira do mestre (1638). Trata-se de um momento em que Hals, em sua plena maturidade, confirmado como o maior expoente da retratística da cidade, afasta-se decididamente da vivacidade algo bufa, algo cigana, por vezes quase bambocciante, de seus retratos (ou figuras de gênero) de juventude e primeira maturidade, isto é, dos anos iniciais até aproximadamente 1635, muitos ainda reminiscentes das temáticas e das poéticas “naturalistas” e populares do caravaggismo de Utrecht. A capacidade de comunicação afetiva, a simpatia contagiante de um retrato como o de Pieter van den Broecke, de c.1633 (Kenwood, Londres), eclipsam-se doravante diante de uma nova circunspeção, de um senso mais afirmado do poder, quando não de um certo spleen do poder. O controle completo da composição exerce-se então a partir de meios mais econômicos, e a violência da pincelada torna-se com freqüência mais funcional e menos expressiva. Este período por sua vez parece ser ultrapassado a partir do final dos anos 40, quando o artista encaminha-se para uma liberdade formal - só comparável à do velho Velázquez e sem precedentes desde o último Tiziano-, concluída no Retrato de um Homem, de Boston, já dos anos 60, e na obra-prima de 1664, As Regentes do Asilo dos Velhos (Museu Frans Hals), síntese final de uma poética que, para além da retratística moderna, de Courbet a Whistler e a Cézanne, anuncia o essencial das intuições da abstração de nosso século.

Texto extraído do
Catálogo do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand: Arte Francesa
Coordenação geral: Luiz Marques
São Paulo, Editora Prêmio, 1998.

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