SERVIÇO EDUCATIVO,

CURSO INTRODUTÓRIO À HISTÓRIA DA ARTE A PARTIR DA COLEÇÃO DO MASP

Aula do Mês - Maio de 2007

GUIDO RENI, Ateliê de Bolonha, 1575 -1642



Suicídio de Lucrécia
Óleo sobre tela, 113 X 91cm., 1625 -1640
Acervo do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand MASP.

Obra

Segundo os doadores o príncipe George Lubomirsky e sua esposa, a baronesa Schummer-Rheinfelden, a obra provém das coleções do cardeal Mazzarino e encontrava-se em sua residência, hoje sede do Institut de France, quando foi danificada pelo fogo em 1660. Após 1815, a coleção rumou para o palácio de Molkerbastei, na Polônia, até sua dispersão parcial durante a Segunda Grande Guerra.

A fonte literária fundamental de Lucrécia é Tito Lívio, História Romana, livro I, LVII-LX.Segundo o historiador, Lucrécia é filha de Spurio Lucrécio Tricipitino, provavelmente cônsul suffectus em 509 a.C., e esposa de Lúcio Tarquínio Collatino, também ele presumivelmente cônsul no mesmo ano. Por sua beleza e virtude, Lucrécia suscita uma incontrolável paixão em Sexto Tarquínio – filho do rei de Roma, Tarquínio , o Soberbo - , que se aproveita da situação de hóspede da casa de Lucrécia para violentá-la, ameaçando, caso resistisse, matá-la e deixar ao lado de seu cadáver um escravo degolado e nu, para acusá-la de tê-la surpreendido em ignóbil adultério. Lucrécia mortificada pela perda de sua honra, manda chamar seu pai e o marido, em viagem, obtendo deles o juramento de vingança antes de trespassar o coração com uma adaga. O suicídio de Lucrécia é o estopim de uma revolta popular que levará à derrubada dos Tarquínios e a instauração a República.

Para alem de suas ressonâncias políticas, alusivas ao direito da revolta libertária contra a tirania, a temática da “morte nobre” ou do suicídio por honra, particularmente cara ao neo-estoicismo em voga desde a segunda metade do século XVI, foi objeto de diversas controvérsias morais, teológicas e filosóficas, além de uma densa dramaturgia e de um sem número de representações figurativas de personagens da história antiga (sobretudo romana), como Cleópatra, Catão de Utica, Pórcia, Sofonisba, Agripina, Arquimedes e Lucrécia. Desde o poema The Rape of Lucrece, de Shakespeare (1594), até a cantata homônima de Haendel, de 1706, o tema de Lucrécia conta-se entre os mais recorrentes nas artes do século XVII, e sobremaneira em Reni, em cujo,ateliê nasceram nada menos que quinze versões (até hoje desconhecidas) da cena do suicídio de Lucrécia, além do exemplar do MASP (Gênova, coleção privada, e em Baccheschi 1971, ad indicem). Reni figura Lucrécia seja no momento em que está preste a se suicidar, seja no momento em que já se apunhalou, mas em todo caso sempre após o estupro, talvez em uma espécie de decorosa reação ao costumeiro erotismo a que se havia prestado a cena desde Giulio Romano e Tiziano.

Embora uma avaliação precisa de sua qualidade seja dificultada por seu estado de conservação, a obra do MASP, conquanto de qualidade elevada, parece claramente oriunda do ateliê do mestre. Ao publicá-la em 1971, Baccheschi não a inclui entre as obras seguras da mão do mestre. Nenhum dos originais ou variantes do ateliê conhecidos forneceram contudo o modelo da versão do MASP, que tampouco pode ser assimilada ao Suicídio de Cleópatra, quase tão abundantes no catálogo de Reni e em geral de composição similar. Do ponto de vista de sua datação,a obra não foge de qualquer maneira dos anos em que incidem a totalidade das versões renianas do tema, isto é, os anos d 1620-1640.

O Artista

Formado inicialmente em música pelo pai, Daniele, musicista a serviço da Signoria de Bolonha, Guido estuda pintura de 1584 a 1593 no ateliê do pintor flamengo Denis Calvaert, já então a muito instalado em Bolonha. Entre os seus condiscípulos estão Francesco Albani e Domenichino. Segundo Bellori (1672), Guido estuda as gravuras de Dürer e a pintura de Rafael. Por volta de 1595, adere à Accademia del Naturale ( a futura Accademia degli Incamminati), que os Carracci tinham aberto em 1582, evidentemente atraído pelas “novidades antimaneiristas dos Carracci”. (Cavalli 1954; Baccheschi 1971). È deste período suas principais experiências pictóricas a partir de modelos de Annibale Carracci e de Rafael, do qual copia várias vezes , o Êxtase de Santa Cecília, hoje na Pinacoteca Nazionale di Bologna. Em 1600 está ainda em Bolonha, embora possa já ter realizado uma primeira viagem a Roma, e em 1600 é documentado em Roma, onde permanecerá intermitentemente até 1614, malgrado a constantes deslocamentos a Bolonha e a outras cidades. Seu retorno definitivo à cidade natal, após essa data, abre um novo período de mais de um quarto de século de intensa atividade que garante ao artista um prestígio sem comparação na Bolonha dos Seiscentos.

A fortuna crítica de Reni, uma das mais instáveis da história do gosto, oscila diretamente em razão do prestígio da própria noção de classicismo, embora curiosamente a pintura deste paladino da forma clássica- cultuado pelos clássicos , de Poussin a Goethe e a Ingres, pelos viajantes do “Grand Tour” e pelo mercado – tenha tendido ao final da vida para uma poética da mancha que prenunciava claramente o tardio Setecentos francês de Fragonard.

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