SERVIÇO EDUCATIVO,
CURSO INTRODUTÓRIO À HISTÓRIA DA ARTE A PARTIR DA COLEÇÃO DO MASP
Aula do Mês - Março de 2007
TIZIANO VECELLIO
Pieve di Cadore (Belluno), 1488/1490 - Veneza, 1576.
Retrato do Cardeal Cristoforo Madruzzo
Óleo sobre tela, 210 X 109 cm, 1552
Acervo do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand
MASP.
Obra
De retorno de uma segunda estada em Augsburgo, em 1551,
Tiziano retrata Cristoforo Madruzzo nos anos em que este é
em Trento - na qualidade de príncipe-bispo da cidade - o
anfitrião do grande Concílio de 1545-1563. O perfil
histórico deste fundamental personagem da história
política e eclesiástica da Europa do século
XVI foi mais bem delineado por ocasião da
exposição de 1993, em Trento, dedicada aos
Madruzzo. Filho mais jovem de uma família
aristocrática, a se destinar portanto à carreira
eclesiástica, Cristoforo Madruzzo (1511-1578) estuda
Direito em Pádua, onde em 1531-1532 recebe as ordens
menores, e Jurisprudência em Bolonha (1532-1537), enquanto
ocupa a posição de "procuratore della nazione
germânica" (sua mãe, Eufemia Sporenberg, era
alemã) e galga, paralelamente, com notória avidez
todas as dignidades clericais até o cardinalato, obtido
com uma nomeação in pectore no consistório
de 1542. Durante dois anos, 1556-1557, assume o cargo,
politicamente delicado, de governador de Milão, em nome do
Imperador.
Defensor declarado dos interesses hispano-imperiais, Madruzzo
tenta desempenhar um papel de mediador nas diferenças que
opunham então a Igreja à causa espanhola, sendo
esta talvez a razão pela qual, como cogita Robertson (
1983, p. 227), não envergue aqui a indumentária
cardinalícia. Em 1567, lega os títulos tridentinos
ao sobrinho Ludovico Madruzzo e morre em 1578, em Tívoli,
hóspede do cardeal d'Este. O relógio que ocupa uma
posição tão preponderante neste retrato
(presente não raramente na retratística
tizianiana), acompanhou curiosamente os deslocamentos da obra e
foi ainda visto por Cavalcaselle em 1877, na residência dos
barões Salvadori. Objeto de diversas
interpretações, ele deve simbolizar de modo geral,
como aventa Panofsky (1969), e sem prejuízo de eventuais
significados mais pontuais ou circunstanciais engenhosamente
repertoriadas por Camesasca (1987), um memento mori, uma
advertência sobre a transitororiedade da glória e a
necessidade da temperança. Como tal, é um
lugar-comum da retratística veneziana e comparece, por
exemplo, ainda num retrato de Paris Bordon, conservado no
MASP.
Segundo Wethey (1971), o quadro foi "ligeiramente reduzido em
baixo e no lado direito". A sucessão precisa dos
proprietários da obra foi restabelecida por Camesasca
(1987, p. 84), desde a própria residência do cardeal
Madruzzo, o Castello del Buon Consiglio em Trento (1552- ante
1658), passando ao Palácio Roccabruna na mesma cidade
(1682-após 1735), aos herdeiros dos novos
proprietários, os barões Gaudenti della Torre, que
a legam em 1855 aos barões Salvadori, os quais a vendem
por volta de 1905 à Casa Trotti & Cia., de Paris, que a
transfere a J.Stillman, cujos herdeiros levam-na a Nova York
antes de 1907. Em 1942, o Madruzzo passa a pertencer a Mrs. Avery
Rockfeller, que a vende à galeria Knoedler, por
intermédio da qual a obra é adquirida pelo
MASP.
O estado de conservação da obra foi avaliado de
modo muito contrastante pelos estudiosos, de Cavalcaselle e
Fogolari a Wethey e Camesasca. Embora severo em seu julgamento
sobre um "desviante restauro" da obra ocorrido antes de 1907,
Camesasca escreve em 1987 que "nenhum motivo faz duvidar da
possibilidade de recuperar o jogo refinadíssimo de pretos
sobre pretos, do qual deveria aflorar boa parte da qualidade
originária". E, com efeito, após a
restauração de que acaba de se beneficiar a obra
(1992-1995), confiada aos cuidados de Andrea Rothe, da Getty
Foundation, revela-se ela na sua mais plena e feliz visibilidade.
Malgrado sua desfavorável situação
conservativa anterior e sua localização
descentrada, a obra foi sempre objeto de avaliações
superlativas, desde Cavalcaselle que, no século passado,
definia-a como "um dos retratos importantes da escola
vêneta", até Pallucchini que, em 1969, fala de "uma
pasta cromática já digna de Renoir", para concluir:
"Jamais como nesta imagem Tiziano soube imprimir o senso de uma
vida fluida e corrente, colhida em uma atitude, em um movimento,
e um olhar; a personagem em uma inteireza física e
espiritual. Neste retrato de figura inteira, Tiziano mostra saber
ambientar o modelo em uma nova dimensão temporal, captada
mediante a perfeita aisance do seu meio pictórico, fluido
e atmosférico a um só tempo".
A controvérsia sobre a data 1552 inscrita duas vezes no
quadro, pretensamente incoerente em relação a uma
imprecisa menção de Vasari e ao fato de o retratado
não se apresentar a um hábito cardinalício
(quando fora já investido de tal dignidade em 1552),
suscitou diversas hipóteses de datações
alternativas até 1542 (Pallucchini 1952-1953; Valcanover
1542), hoje aparentemente superadas, como se verifica nos estudos
mais recentes do próprio Pallucchini (1969), de Wethey
(1971) e de Camesasca (1987). A data 1552 é ainda
confirmada pela idade declarada do cardeal, 39 anos (e não
38, como transcreve Pallucchini), pois é sabido que
nascera em 5 de julho de 1512 (Vareschi, in Dal Prà 1973,
p. 57). E, sobretudo por suas características de estilo
que, como foi notado por Camesasca, aproximam-na do retrato de
Filipe II, do Prado, de 1551.
O Artista
Tal como Bellini durante os anos de 1450 a 1516, Tiziano
domina a cena veneziana por mais de seis decênios (1510 -
1576). E igualmente como em Bellini, o que impressiona sobretudo
em Tiziano é a inesgotável renovação
estilística de que se mostra capaz, desde os
inícios bellinianos e giorgionianos até a
solidão poética dos dois últimos
decênios de atividade. Por fim Tiziano não
terá paralelo em sua prodigiosa capacidade de trabalho, da
qual nascem possivelmente mais de mil obras autógrafas,
quase seiscentas das quais conservadas, e não se quantas
de ateliê. Tiziano nasce em Pieve di Cadore na
circunvizinhança da pequena cidade de Belluno, no
Vêneto, já então e de há muito
possessão da Sereníssima República de
Veneza, à qual diversos membros de sua próspera
família serviam como funcionários administrativos.
Por força de inferências estilísticas e de
testemunhos de época, (Dolci 1557; Vasari 1568), pode-se
situar sua data de nascimento entre 1488 e 1490, embora o
próprio pintor pareça ter cultivado a lenda de que
tivesse nascido em 1477, como se lê, por exemplo, em uma
carta sua de 1571 a Felipe II, possivelmente para se cercar da
aura de uma longevidade mais veneranda, ou mesmo, como já
se cogitou, para obter vantagens nas pensões recebidas de
Carlos V e de Felipe II (De Vecchi 1981, XI, ad vocem; Camesasca
1987, p.82).
Aos nove anos de idade, portanto entre 1497 e 1499, Tiziano
transfere-se para Veneza com o irmão mais velho, onde
inicia sua carreira de pintor sucessivamente nos ateliês de
Sebastiano Zuccato, de Gentile e Giovanni Bellini, e de
Giorgione. É ao lado deste último que, nos
fragmentários afrescos de 1507, no Fondaco dei Tedeschi, o
jovem artista inicia sua intervenção nos destinos
da "reforma tonal" operada então em Veneza sobretudo pelo
velho Bellini e pelo próprio Giorgione, "reforma" que
Vasari, em sua análise de Tiziano, define como "o pintar
só com as cores mesmas sem outro estudo de desenhar em
papel" (il dipingnere solo com i colori stessi senz'altro studio
di disegnare in carta). A primeira obra datada de Tiziano, os
três Milagres de Santo Antonio de Pádua na Scuola
del Santo em Pádua (1511), mostra-o já independente
da placidez onírica e puramente sensual de Giorgione,
morto no ano anterior, graças sobretudo a uma
gestão mais dramática, mais contrastante, da
tonalização, da perspectiva e do jogo dos
personagens.
Com a morte de Bellini em 1516, o ateliê de Tiziano, que
já criara obras-primas como os Retrato de Ariosto e Amor
Sagrado e Amor Profano, firma sua hegemonia em Veneza, com uma
das mais decisivas obras do segundo decênio, a
Assunção da Virgem, terminada em 1518. É o
período convencionalmente conhecido como "o classicismo
cromático", não alheio à fluidez
poética do Orlando furioso de Ariosto, justamente de 1516,
em que a pintura de Tiziano abre-se para uma paleta dourada, para
uma luminosidade e para um frescor de fábula no tratamento
do repertório humanista-mitológico, prenunciadores
da arcádia do século sucessivo.
Os anos de 1520-1545 são chamados os da crise
maneirista de Tiziano, por mostrarem-no mais sensível aos
desenvolvimentos da arte tosco-romana, notadamente à de
Michelangelo. Abrem-se com o políptico Averoldi, de
1520-1522, no qual sobretudo a figura de São
Sebastião parece acusar um novo conhecimento da cultura
romana após a descoberta do Laocoonte, em 1506, e
após os afrescos do teto da Sistina de Michelangelo.
Durante esses anos de sua maturidade, sua atividade e figura de
artista ocupam o centro da cena italiana e mesmo européia,
de Ferrara a Mântua, de Bolonha a Urbino, de Augsburgo a
Roma. Nutre ao mesmo tempo relações continuadas com
personagens do calibre intelectual de Bembo e Aretino, e sua
clientela estende-se dos Della Rovere ao imperador Carlos V, de
Francisco I aos maiores embaixadores, feudatários
alemães e prelados da Igreja, do Papa Paulo III Farnese,
enfim, ao cardeal Cristoforo Madruzzo. Essas
relações traduzem-se em uma tal atividade de
retratista que Vasari não exagerava ao afirmar que: "
Não houve quase senhor de grande nome ou príncipe
ou grande senhora que não tenha sido retratado por
Tiziano".
Texto extraído do
Catálogo do Museu de Arte de São Paulo Assis
Chateaubriand: Arte Italiana
Coordenação geral: Luiz Marques
São Paulo: Ed. Prêmio, 1998
A restauração do retrato de Cristoforo
Madruzzo
Histórico das intervenções de restauro e
comentários sobre seu estado de
conservação
Eneida C. Parreira *
Em 1992, quando o estúdio de conservação e
restauro do MASP começou a ser organizado, uma das
prioridades da conservadoria do museu era a
restauração do Retrato do Cardeal Cristoforo
Madruzzo de Tiziano.
O retrato, de proveniência documentada e já citado
por Vasari, entrou para a coleção do MASP em
dezembro de 1950 e foi inscrito no livro de tombo em 12 de
janeiro de 1951. Em uma carta de maio de 1990 (1) da M. Knoedler
& Co., Inc., galeria que vendeu a pintura ao museu, respondendo a
uma consulta de Bardi sobre intervenções realizadas
na pintura, consta que a obra pode ter sido limpa entre 1906 e
1936, já que uma foto sua de antes da limpeza havia sido
publicada em 1906 no livro de Fischel da série Klassiker
der Kunst. A mesma carta diz que outra foto da pintura, já
limpa, foi publicada em 1936 no livro de Tietze. A
diferença entre as duas fotos é grande e chega a
fazer pensar que são duas pinturas diferentes. Na foto de
1906, entre outras diferenças, a cortina ao fundo
não existe, deixando a mão direita do cardeal
suspensa no ar com o polegar voltado para baixo em um gesto sem
sentido; a mesa sob o relógio e as folhas de papel
é quase imperceptível; o pé esquerdo do
retratado confunde-se com a borda do manto e a face tem uma
expressão mais pesada, já que a barba, o bigode e
as passagens de tom que modelam o rosto estão mais
escuros.
No catálogo da exposição de Tiziano em
Veneza e Washington (2), em 1990 e 91, Bardi escreve que "a
pintura foi restaurada pela última vez por Picchetto em
Nova York antes da sua aquisição pelo Museu de
São Paulo". Da ficha técnica (3), que diz
erroneamente que a obra entrou para o museu em 12 de janeiro de
1959, consta que a obra sofreu restauração
provavelmente por mão do restaurador Stefan Picchetto de
Nova York, uns 20 anos antes. Wethey, em 1971, refere-se à
obra como bem preservada e diz que foi limpa em 1956, portanto,
depois de entrar para a coleção do MASP.
É difícil dizer onde se perdem as datas e
seqüências, mas a verdade é que a obra sofreu
várias intervenções e em 1990, quando chegou
ao Palazzo Ducale em Veneza, para a exposição
Titian, Prince of Painters, seu aspecto era inaceitável.
Luigi Santi Savio, restaurador da Gallerie dell'Academia e da
Superintendência de Bens Artísticos de Veneza, faz
comentários negativos em relação ao estado
de conservação da pintura e a recentes
intervenções que a obra tenha sofrido.
Desde a primeira vez que vi a pintura, na exposição
em Veneza e depois em Washington, e quando comecei a trabalhar
para o MASP, sempre me pareceu que estava coberta por um verniz
extremamente espesso e amarelado e que, na área do
braço direito do retratado, acima da mão, teria
sido tentada alguma intervenção, como, por exemplo,
um teste de limpeza, e, ao se tentar integrar a área ao
resto da pintura, o resultado não havia sido
satisfatório: ou fora utilizado um solvente que acabou por
"reformar" o verniz antigo em uma extensão relativamente
grande, ou fora aplicado um verniz novo naquela região e a
diferença entre as camadas antiga e nova de verniz ficou
perceptível. Entretanto, o estado de
conservação da obra não podia ser descrito
como muito ruim, mesmo porque seria impossível determinar
o estado da pintura sem exames mais detalhados, já que o
verniz tão espesso e escurecido impedia uma leitura real
da superfície da obra.
A oportunidade de investigar melhor o estado de
conservação da pintura surgiu em 1993, quando a
obra foi requisitada em empréstimo para a
exposição Il Madruzzo e L'Europa no Castello del
Buoconsiglio em Trento, na Itália. O retrato do Cardeal
Madruzzo era fundamental para a exposição e o
então curador chefe do MASP, Fábio
Magalhães, concordou com o empréstimo. Era
importante que o aspecto da pintura fosse melhorado para a mostra
e a obra foi submetida a um tratamento superficial. As
informações abaixo reproduzidas foram retiradas do
relatório de exame e tratamento feito em junho de
1993.
1. MATERIAIS E CONSTRUÇÃO DA OBRA
Suporte - tela de linho
Fundo - não testado
Camada Pictórica - óleo
Verniz - a pintura está parcialmente coberta por uma
espessa camada de verniz de resina natural escurecido e
totalmente coberta por uma camada de verniz de resina
sintética.
2. ESTADO DE CONSERVAÇÃO DA OBRA
Suporte - reentelado a cola (de prinha). As beiradas originais
superior e vertical esquerda estão desdobradas, fazendo
parte do campo visual da obra e conseqüentemente aumentando
seu tamanho.
Fundo - não testado.
Camada Pictórica - Apresenta inúmeras perdas,
áreas que aparentam ter sido danificadas por calor
excessivo, abrasões, antigos rasgos e repinturas.
Há indícios da obra ter sofrido vários
restauros em épocas diferentes. A camada de verniz antigo
que ainda permanece é tão espessa que o exame com
ultra-violeta ( UV/ fluorescência visível )
não revela todos os retoques.
A área do panejamento sob o braço esquerdo do
cardeal está muito danificada com várias perdas.
Este fato é visível a olho nu, mas as falhas podem
ser estudadas melhor no raio X feito em 1990.
Em um primeiro exame não é possível
determinar a extensão das repinturas exceto pelas mais
recentes que são muito visíveis. A roupagem do
cardeal, por ser de cor escura, próxima do negro, e estar
quase toda coberta por verniz escurecido, é de
difícil leitura: está sem volume e quase todos os
detalhes perderam a definição.
Verniz - O verniz foi parcialmente removido. Exame com
ultravioleta deixa claro a parte ainda recoberta por verniz
antigo que também pode ser vista a olho nu. O rosto, as
mãos, toda a parte superior a partir da cabeça,
todo o planejamento vermelho acima do braço esquerdo (4),
o braço esquerdo (5) e a área contendo uma pequena
bolsa com acabamento de renda branca pendurada no cinto
não apresentam mais o verniz antigo (6).
Um teste de limpeza de formato redondo, medindo aproximadamente
2,5 cm de diâmetro, feito no braço direito da figura
(7), removeu o verniz e a camada pictórica chegando
à preparação da tela. Este teste foi
retocado com tinta escura e é muito visível porque,
sendo o verniz antigo tão espesso, a área na qual
ele foi removido ficou com um contorno muito acentuado e com a
textura diferente do resto da roupagem do cardeal. Este teste
aparentemente estendeu-se às áreas em torno deste
círculo, removendo, entretanto apenas o verniz. Toda esta
área foi coberta de verniz novo, criando um local onde o
verniz é ainda mais brilhante do que o resto da obra. A
diferença de texturas provocada pela limpeza de seletiva
é um dos problemas da obra no momento. O verniz antigo
formado por várias camadas tem uma superfície lisa
e polida, quase espelhada, enquanto as áreas onde este
verniz foi removido revelam o que foi poupado das pinceladas e da
textura original, não destruídas pelo
reentelamento.
O reentelamento provocou interferência da tela nova na tela
original e conseqüentemente interferência na camada
pictórica. A última camada de verniz é
brilhante e de aspecto desagradável. Provavelmente, foi
colocada após a limpeza que removeu o verniz de
áreas selecionadas.
O tratamento feito na época foi unicamente para que a obra
ficasse "apresentável" para a exposição em
Trento. A intervenção foi superficial, apenas para
igualar o verniz e integrar algumas áreas onde os retoques
ou abrasões eram muito visíveis. Foi removido o
verniz sintético e também algumas das camadas do
verniz antigo. O verniz que permaneceu ainda tinha espessura de
vários milímetros. Com a redução do
verniz, detalhes antes só perceptíveis com
auxílio de iluminação forte passaram a ser
mais aparentes. O relatório termina com a seguinte
observação:
Este tratamento foi unicamente para que a obra pudesse ser
exposta ao público temporariamente e as
soluções utilizadas não devem ser
permanentes. No momento, apesar de aparentemente
"apresentável", a obra encontra-se com o seu
equilíbrio modificado já que as partes escuras
estão muito escuras e as claras, muito claras. É
possível que grandes áreas estejam totalmente
recobertas por repintura e isto só poderá ser
determinado por exames e testes mais aprofundados. De qualquer
forma, a pintura deve ser limpa, seu problema de texturas
solucionado e seu equilíbrio devolvido.
O reentelamento mencionado no relatório, provavelmente
feito no século XIX ou no princípio do XX, é
mantido até hoje. Os danos causados por este processo
são irreversíveis. Uma grande área da
cortina vermelha abaixo do braço direito do retratado foi
profundamente afetada pelo calor. Estes danos já eram
visíveis no raio X feito em 1990 em São Paulo e
ficaram mais aparentes quando a camada de verniz ficou mais
fina.
Em 1991, Andrea Rothe, restaurador chefe do J. Paul Getty Museum,
foi consultado informalmente sobre a possibilidade de restaurar o
retrato de Tiziano e demonstrou interesse. Após a mostra
em Trento, os responsáveis pela exposição,
atendendo pedido do MASP, concordaram em enviar a pintura para a
Califórnia, em vez devolvê-la para o MASP.
A pintura permaneceu no J. Paul Getty Museum de outubro de 1993 a
maio de 1996. No relatório do restauro feito no
departamento de conservação e restauro de pinturas
do Getty Museum, Andrea Rothe escreve:
A pintura estava muito repintada, especialmente a cortina de
veludo vermelho ao fundo. A superfície estava coberta com
um verniz antigo, muito espesso e escurecido que havia
desenvolvido uma rede de craquelê. Este verniz fazia a
superfície parecer com a de uma pintura do século
XIX e tinha sido aplicado para encobrir a camada pictórica
em relativo mau estado e danificada por limpeza excessiva. O
manto negro do retratado havia se tornado sem forma e perdera
visibilidade. O polegar direito do retratado estava danificado e
mal reconstruído.[...]
A limpeza revelou que a cortina de veludo vermelho estava
particularmente danificada. A camada de tinta vermelha parece ter
sido derretida pelo calor e/ou pela ação de
solventes, fazendo com que um pouco da pintura tenha escorrido
pela superfície e tenha se depositado muitas polegadas
abaixo na forma de duas grandes gotas e muitas outras menores. O
lenço na bolsa na cintura de Madruzzo foi "limpo demais" e
perdeu a maior parte de sua forma. Felizmente, a face é
uma das áreas mais bem preservadas da pintura. (8)
Em 1878, quando o retrato ainda estava de posse da família
Salvatori em Trento, Cavalcaselle (9) descrevendo a pintura,
refere-se ao tapete que cobre a mesa sob o relógio como um
tapete verde. Ele diz saber que o retrato está em mau
estado devido à idade a aos restauros. Em realidade, a
pintura provavelmente estava já coberta por camada espessa
de verniz escurecido que impedia a visão, pois o tapete,
pode-se ver hoje, é pintado em tons de marrom escuro
avermelhado. Também é possível que o tapete
estivesse completamente repintado e ele estivesse se referindo
à pintura como ela é apresentada na foto de
1906.
Camesasca em 1987, comentando o fato de que o museu mandou fazer
uma avaliação do estado de
conservação da obra antes de comprá-la em
1950 escreve que: "é inacreditável que um estudioso
de iconografia não tenha ficado intrigado com um cardeal
do século XVI com calça justa, como as nossas,
introduzidas no século seguinte" (10). Diz ainda que:
"isto era uma conseqüência, a mais 'aberrante', do
desconsiderado restauro". Não se sabe a qual restauro se
refere. Entretanto, já após a limpeza parcial para
a exposição em Trento, ficou evidente que as
"calças" não existiam. A roupa do cardeal, que
até então (impossível determinar desde
quando) era uma mancha negra e disforme, sem volume e sem
definição, começou a ganhar forma e mostrar
as dobras do tecido do manto; as pregas da veste longa e apertada
à cintura por uma tira de tecido fechada por um nó.
Na tira está suspensa uma pequena bolsa que deixa aparecer
a ponta de um lenço branco. O que Camesasca entendeu como
as pernas da calça justa são na verdade: no caso da
perna esquerda, a dobra da frente do manto que, descendo desde os
ombros, cai ligeiramente aberta em relação à
borda inferior, exatamente em cima do pé esquerdo do
retratado; no caso da perna direita, a borda inferior da veste
que ondula sobre a perna e desaparece ao ser coberta pela dobra
vertical do lado direito do manto. Todos estes detalhes ficaram
evidentes depois da limpeza feita no Getty.
Wethey afirma que a pintura está ligeiramente menor (11),
o que não é verdade. Tanto do lado direito quanto
do lado esquerdo, pode-se ver onde termina a camada
pictórica e onde continua a tela original sem
preparação. Estando parte da tela original no campo
de visão da obra, significa que a lateral foi desdobrada.
Tanto na pintura como no raio X, pode-se ver a
deformação da trama da tela ao longo das dobras
laterais, que é causada quando o tecido é esticado
para que a preparação seja aplicada. A
preparação líquida, ao secar, captura a
deformação provocada pelos que seguram a tela na
lateral do chassis em determinados pontos. Se a tela
posteriormente tem suas dimensões reduzidas, esta
deformação deixa de ser evidente porque ela
é mais visível junto à beira, onde a tela
dobra sobre a lateral do chassis. O lado superior também
retém a beirada original. Como nas laterais, a beirada foi
desdobrada e os furos causados pelos pregos, que um dia prenderam
a borda à lateral do chassis, hoje estão na frente,
demonstrando que, de fato, a pintura foi aumentada e não
reduzida em suas dimensões.
O raio X da pintura inteira feito no MASP em 1990, sugere
vários pentimenti, alguns confirmados pelos raio X de
qualidade superior mas não completo, feito no Getty
Museum. O detalhe mais importante é a mão direita
do cardeal que, no raio X, tem duas mãos direitas, e
nenhuma delas é a definitiva que vemos hoje na pintura.
Também o barrete do cardeal, apesar de ter a mesma forma
que vemos hoje, inicialmente tinha tamanho maior.
Há na literatura inúmeras discussões sobre a
datação da obra. Hoje, vários autores
concordam com a data de 1552. A inscrição no
quadrante superior direito da pintura, bem visível
atualmente, contém a data 1552. Acerca da
inscrição escreve Andrea Rothe:
A inscrição visível na direita superior da
pintura foi colocada sobre uma muito mais antiga. Já que a
inscrição mais nova parece estar de acordo com a
mais antiga, decidiu-se por não removê-la. Esta
decisão foi tomada também porque a
inscrição mais antiga parece estar muito gasta.
(12)
Não há indícios de inscrições
nas folhas de papel sob o relógio, embora seja
provável que tenham existido.
Comentando o teste de limpeza que causou a polêmica durante
a exposição em Veneza, Rothe explica:
Em fotografias feitas antes da pintura vir para o Getty, é
visível um teste de limpeza redondo na manga esquerda. Em
limpeza subseqüente foi descoberto que esta área
havia sido severamente danificada, e que pouco da camada original
de pintura havia restado. (13)
Na radiografia de má qualidade feita em 1990, pode-se ver
com dificuldade que esta área a que Andrea Rothe se refere
e um pouco da região ao redor estão realmente em
mau estado.
De toda a informação que reuni sobre a obra na
literatura, tendo trabalhado com a pintura na limpeza parcial de
1993, e participando da parte inicial da
restauração no Getty em 1994, concluí que a
maioria das informações publicadas sobre o estado
pintura foram feitas sem que os autores tivessem
condições favoráveis de acesso à
pintura. Acredito que o espesso verniz que até
recentemente cobria a superfície do retrato, impedindo a
visão do original, foi sendo acumulado a cada
intervenção desde a limpeza a que se refere a carta
da Knoedler, que teria acontecido entre 1906 e 36. As camadas
inferiores deste verniz continham óleo que causou a
formação de ligações cruzadas na
estrutura do verniz, fazendo com que ele se tornasse mais
difícil de ser removido. A cada novo tratamento um novo
verniz era aplicado sobre o mais antigo sucessivamente,
até que pouco se via da pintura original. A limpeza
seletiva e desigual que removeu verniz da parte superior da
pintura assim como da mão esquerda do cardeal, talvez
tenha sido realizada em 1956. A prática de limparem-se as
áreas claras da pintura deixando as escuras com o verniz
antigo era muito comum e uma forma rápida de "melhorar" o
aspecto da obra, devolvendo-lhe mais visibilidade. O
desequilíbrio de contrastes causado por este método
de limpeza não era um empecilho para a sua
utilização.
É evidente que a pintura foi vítima das
mudanças sofridas nos seus mais de 400 anos de
existência e inúmeras intervenções. No
entanto, hoje, a obra por si só pode contar a sua
história. A última restauração
devolveu ao Retrato do Cardeal Cristoforo Madruzzo a sua
integridade, e quem for visitá-lo na pinacoteca do MASP
verá tão somente a grandeza da obra de um dos mais
respeitados pintores venezianos. As restaurações
fazem parte do seu passado.
NOTAS
* Departamento de Conservação e Restauro, MASP.
1. A carta datada de 7 de maio de 1990 dá
informações retiradas do arquivo de provenance da
obra e diz também que é improvável que a
pintura tenha sido limpa na própria Knoedler porque esteve
lá somente por três semanas em 1907.
2. Titian, Prince of Painters, Marsilio Editori, p. 292, Junho de
1990, Veneza.
3. Ficha com todas as informações da pintura tais
como: doadores, proveniência, bibliografia, etc.
4. O braço esquerdo para quem está olhando a
pintura, mas, em verdade, a descrição se refere ao
braço direito do retratado.
5. Idem.
6. Durante a limpeza em 1995 ficou claro que ainda havia muito
resíduo de verniz antigo nestas áreas.
7. O braço esquerdo do retratado.br>
8." The painting was heavily overpainted, particulary the red
velvet curtain in the background. The surface was covered with an
old and very thick darkened varnish that had created a crackle
pattern all its own. This varnish made the surface look like a
19th century painting, and had been applied to cover the heavely
overcleaned and somewhat damaged paint film. The black cloak of
the sitter had become formless and dull. The damaged proper righ
thumb of the sitter had beem badly reconstructed.
...The cleaning revealed that the red velvet curtain was
particulary damaged. The red paint layer seems to have been
melted by heat and/ or solvent action, causing some of the paint
to drip down the surface and collect many inches below in two
largwe drops and several smaller ones (see color transparency
after cleaning). The handkerchief in the pouch at
Madruzzo´s waist had been overcleaned and had lost most of
its modelling. Fortunately, the face is one of the better
preserved areas in the painting".
9. Crowe e Cavalcaselle, Tiziano, La sua vita e i suoi tempi,
vol.II, p.136, Florença, 1878.
10. E. Camesasca, Da Raffaello a Goya... da Van Gogh a Picasso,
p.85-86, Nuove edizione Gabriele Mazzota, Milano, 1987.
11.H. E. Wethey, The Paintings of Titian, Vol. II p.116-117,
Londres, 1971.
12. "The visible inscription on the top right of the painting has
been placed over a much older one. Since the newer inscription
seems to conform to the older one, it was decided not to remove
it. This decision was also taken because the older inscription
seems to be very worn".
13. "In photographs made before the painting came to the Getty, a
round cleaning test on the left sleeve is visible. In subsequent
cleaning we discovered that this area had been severely damaged,
and that little of the original paint layer was left".
Texto extraído do Boletim do Instituto de História
da Arte do MASP
Ano I, Número 1, Janeiro-Abril 1997.
Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, MASP.