Uma composição semelhante encontra-se na tela Te Vaa (A Canoa) (São Petersburgo, Ermitage), assinada e datada de 1896. Wildenstein identifica o quadro do Masp como uma das nove telas enviadas por Gauguin ao marchand Vollard, citadas em carta de 9 de dezembro de 1896, isto é, uma "paisagem à beira-mar com um pescador bebendo ao lado de seu barco". Kostenevitch nota que Gauguin poderia referir-se também ao quadro do Ermitage. Porém, nesse último estão representadas duas outras figuras, a mulher do pescador e uma criança.
O modelo de Gauguin foi o Pauvre Pêcheur de Puvis de Chavannes (1881, Paris, Musée d´Orsay). Camesasca (1989, p.184) ressalta que Puvis isola suas figuras enquanto Gauguin une-as por meio de uma tensa dinâmica da composição. Bodelsen, não tendo oportunidade de examinar pessoalmente a obra, exprimiu reservas sobre o quadro do Masp, ao lado de outros 29 julgados autênticos por Wildenstein. Isso levou alguns estudiosos a excluir a tela do catálogo das obras de Gauguin. Mas não existem motivos sérios para manter essas reservas. O próprio Gauguin realizou duas gravuras desta composição (Guérin, n.45 e n.46) e um exemplar retocado em aquarela foi incluído no manuscrito de Noa-Noa (p.73), contendo as lembranças da primeira estada do artista em Taiti. A pobreza do pescador taitiano, como a do pescador de Puvis, remete à pobreza evangélica dos apóstolos e dos primeiros cristãos. O quadro foi realizado no mesmo período do Te Tamuri no Atua (Nascimento do Filho de Deus) (Munique, Neue Pinakothek). Camesasca (1989, p.187) considera a figura do pescador derivada de um relevo egípcio, representando o faraó Sethi I, existente no templo dedicado ao mesmo em Abydos.Viveu a primeira parte da infância no Peru, em Lima, cidade natal de sua mãe. Após o retorno da família à França, freqüentou escolas em Orléans e em Paris, alistando-se na Marinha como cadete. Em 1871, voltou a viver em Paris, após ter trabalhado por cinco anos na marinha mercante, e empregou-se numa agência de câmbio, começando, ao mesmo tempo, uma intensa atividade como pintor amador. Nesse período aproximou-se do grupo dos impressionistas, estreitando seu relacionamento com Camille Pissaro e participando das exposições do grupo em 1881 e em 1886. Em 1883, decidiu seguir sua vocação artística e deixou o emprego. Em 1885, viajou para a Bretanha, em Pont-Aven, estabelecendo relações com um grupo de pintores de tendência simbolista, inspirado por Puvis de Chavannes, os Nabis (em hebraico, profetas).
Em 1887, foi ao Panamá e a Martinica, e em 1888, está novamente em Pont-Aven e depois em Arles com Van Gogh. Nesse ano, por causa de uma crise violenta do pintor holandês, a vida e o trabalho comunitário partilhados pelos dois artistas foram interrompidos. Em 1891-1893 Gauguin viajou pela primeira vez ao Taiti, e após 1895 retornou, permanecendo nas ilhas Marquesas até sua morte, mantendo, porém estreitos contatos com Paris e com o meio artístico da vanguarda. O primitivismo de Gauguin não foi, portanto, uma evasão da modernidade, como alguns afirmam, mas a busca de uma nova linguagem figurativa através das tradições de uma sociedade pré-moderna em que convivem a expressividade popular dos Calvários esculpidos na Bretanha, os relevos egípcios, os de Angkor, de Borobudur; do Partenon e da Coluna Trajana, fontes essas que podemos encontrara na coleção de fotografias e gravuras do artista.
Gauguin pôde pintar temas caribenhos durante sua estada na Bretanha e quadros densos de lembranças européias nas ilhas Marquesas. O que une todas as obras de Gauguin maduro é idéia de que o quadro não representa o mundo externo, mas manifesta uma realidade interior.
A pintura de Gauguin, experimentador infatigável também na área da gravura, evidencia uma extraordinária riqueza figurativa e soluções formais inéditas na tradição ocidental, carregadas das temáticas do indivíduo moderno. Coexistência de sistemas de representação diferentes, desarticulação das imagens, decomposição rítmica dos motivos à maneira das gravuras coloridas japonesas, jogos ambíguos com a terceira dimensão e planos achatados, fundos semelhantes a tapeçarias, todos esses elementos influenciaram de forma direta os desdobramentos do simbolismo e do expressionismo.
O interesse de Gauguin pelos ídolos primitivos antecipa em uma geração o dos expressionistas alemães e dos cubistas. Com efeito, a redescoberta da arte do pintor na retrospectiva de 1906 influenciou profundamente os fauves e os experimentos de Picasso nas Demoiselles d’Avignon de 1907. Gauguin foi também escultor e ceramista. Sua atividade nessas áreas, esquecida por muito tempo, foi reavaliada nas últimas décadas.
Luciano Migliaccio