SERVIÇO EDUCATIVO,
ASSESSORIA AO PROFESSOR
Aula do Mês - Outubro de 2006
JEAN-BAPTISTE-SIMÉON CHARDIN
Paris, 1699-1779.
A Obra
Retrato de Auguste Gabriel Godefroy (Jeune Ecouer Qui Joe Au Toton)
Óleo sobre tela, 67 X 73 cm, 1741
Acervo do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand MASP.
A versão conservada no Louvre deste retrato foi exposto no
Salon de 1738 (n.116) com o título Portrait du Fils de M.
Godefroy, joaillier, appliqué à voir tourner un
toton. Em L'art du XVIIIe siècle (1881, I, p.181), Edmond
e Jules de Goncourt mencionam a obra praticamente nos mesmos
termos:"Pequeno quadro representando o retrato do filho do Sr.
Godefroy, joalheiro, atento ao girar de um pião'.
Segundo as pesquisas de Leprieur, reportadas por Rosenberg, Auguste
Gabriel, filho de Charles Godefroy, um banqueiro e joalheiro,
morto em 1748, era dez anos mais jovem que seu irmão
Charles, que se tornaria mais tarde um entusiasta mecenas e
colecionador. Ainda menino de oito anos, ele é retratado
por Jean Baptiste Massé, em um desenho à
sangüínea de 1736, ao lado do irmão e do pai,
na imponente biblioteca da família. Seu irmão
Charles posara já por volta de 1735 para o que é
considerado como o "primeiro retrato verdadeiro de Chardin"
(Conisbee 1985, p. 111). Nascido em 1728, ele tornou-se
écuyer e controlador-geral da Marinha. Grande amante da
pintura, Auguste Gabriel comprou vários quadros da
coleção de seu pai, além de duas importantes
obras de Watteau, que hoje estão no Louvre (Rosenberg
1979, p. 11). Em 1745, a obra encontrava-se na
coleção do célebre amateur Chevalier de la
Roque, que promovera Watteau e para quem, provavelmente, Chardin
pintou a obra em 1741, três anos após ter pintado a
primeira versão do retrato de Auguste Gabriel para a
família Godefroy, hoje conservada no Louvre. Há
pequenas variantes entre as duas obras, como um enquadramento
diferente do rolo de papel, que na primeira versão aparece
integralmente na cena. Da análise de tais variantes
pode-se inferir que a gravura feita por Lépicié em
1742 ( Bocher, p. 52, n. 50 e reproduzida em Norman 1901, p. 125)
usa como modelo a versão do Masp. Essa gravura é
citada no Mercure de France, de novembro de 1742, p. 2506.
Segundo Norman (1901, p. 49), uma "repetição" da
obra encontrava-se outrora na coleção de um certo
Dr. Boutin, em Paris, provavelmente a mesma citada por Rosenberg
em 1979 ( p. 9), o qual faz referência a três
versões realizadas no século XVIII, além de
duas cópias, uma apresentada na venda Marius Palme em 22
de novembro de 1923 e a outra no Ashmolean Museum de Oxford.
Como
bem notam Rosenberg ( 1979, p.240) e Camesasca ( 1987, p. 136),
as duas obras, a do Masp e a do Louvre, contribuíram com
destaque para a redescoberta de Chardin no final do século
XIX. Em 1867, ambas aparecem em uma pequena
exposição em Versalhes, sendo recebidas com
entusiasmo pela crítica. Trinta anos depois, como menciona
Camesasca, foram qualificadas como petits chefs-d'oeuvre por
André Michel, por ocasião da
exposição Portraits de femmes et d'enfants, em
Paris, e enfim, em 1907, na famosa exposição
promovida pela Galerie Georges Petit, elas ganham celebridade.
Nesta ocasião, o Louvre adquire uma das versões,
suscitando uma áspera polêmica, pois escolhe a
versão anterior (provavelmente a de 1738), contudo com
data lacunosa, considerada por alguns experts como de menor
excelência. Os desdobramentos de tal polêmica,
tendente por vezes a depreciar a qualidade da versão
paulista, são reportadas minuciosamente por Camesasca. A
memorável exposição Chardin de 1979-1980 no
Grand Palais trazia ainda ecos da controvérsia de 1907,
embora a plena autografia da versão do Masp tenha sido
reconhecida sem nuances por Pierre Rosenberg.
Ainda em 1985,
Conisbee ( p. 155) considerava contudo a obra apenas como
"provavelmente autógrafa".
Para além da
questão da autografia da versão paulista,
obviamente indubitável, permanece a do significado deste
retrato, que é simultaneamente também uma
natureza-morta e uma cena de gênero. Dever-se-ia imaginar
nesta cena- um menino entretido com o pião e esquecido de
seus afazeres- uma ressonância emblemática ou
alegórica de conteúdo menos evidente?
Conisbee(1985, pp.158-159) discute algumas hipóteses. O
retrato poderia ter sido inspirado em um livro de símbolos
espanhol de 1610, no qual a imagem de um pião, acompanhado
pelo título "Somente em se batendo", simboliza assim a
preguiça humana que não é vencida
senão pela pressão do chicote. A imagem reaparece
em um livro de símbolos holandês, de 1614, em que a
simbologia do pião, transferida para um contexto
religioso, é formulada da seguinte maneira: "Mais distante
está o chicote de suas costas, mais preguiçosamente
elas servem a Deus". O estudioso inglês, contudo, considera
remotas tais associações, não apenas porque
vagas e imprecisas, mas sobretudo porque se deve "permanecer
prudente ao atribuir significações
emblemáticas às pinturas de Chardin". Por outro
lado, se simbologia houver, deve-se buscá-la nos
límpidos alexandrinos apostos à gravura de
Lépicié:
Dans les mains du Caprice
auquel il
s'abandonne,
L'Homme est un vrai Tôton qui
tourne
incessament;
Et souvent son destin dé
pend du mouvement,
Qu'en le faisant tourner
la fortune lui donne.
Conisbee associa a
iconografia em questão à da Bolha de Sabão,
muito difundida na pintura francesa do Setecentos. Outra
associação possível, e que nos parece
impor-se mais imediatamente, é com as duas versões
do Castelo de Cartas, pintadas por Chardin em 1737, hoje na
National Gallery de Londres e de Washington. Mas antes ainda de
quaisquer conotações morais, à maneira de
uma vanitas amenizada, a cena em questão parece indicar
uma benevolente e bem-humorada reprimenda à criança
que, hipnotizada pelo pião, descura de seus estudos
literários e artísticos, esquecidos na gaveta e em
um canto da mesa. Neste sentido, a iconografia de nossa obra
seria uma divertida e irônica variante do tema da
educação infantil, muito em voga no século
XVIII e recorrente inclusive de Chardin.
O Artista
Um dos mais
importantes pintores de seu século, Chardin é o
artista parisiense por excelência. Sua arte não traz
marcas da experiência artística do Grand Tour
italiano, nem sua formação se dá nos moldes
da Académie, cujos cursos ele, filho de um ebanista,
não freqüenta. A vida de Chardin transcorre na Rive
Gauche, entre rue de Seine e rue du Four, e, depois de 1757, no
Louvre, que o aloja por 22 anos, até sua morte. Segundo
Mariette e Cochin, a freqüentação juvenil nos
ateliês de Noel Coypel e de Jean-Baptiste Van Loo parece
ter sido mais marcante e efetiva que o treinamento com o pintor
de temas históricos, Pierre-Jacques Cazes. O ingresso de
Chardin na Académie Royale em 1728, por ocasião da
exposição de quatro naturezas-mortas, dentre as
quais a célebre Raia, do Louvre, e graças,
aparentemente, aos bons préstimos de Largillière,
confirma-o, na hierarquia dos gêneros, como pintor
subalterno de naturezas-mortas, posição que ele
acata sem contestação.
A natureza-morta, com
efeito, fornece-lhe o universo de que necessita para uma
meditação sobre a pintura como ordem, urdida pela
composição de objetos pousados no plano da mesa.
Talvez a disciplina mental de Chardin não seja indiferente
à geometria invisível do bilhar, aprendida na
convivência com o pai, renomado artesão de mesas
para esse jogo.
Uma colaboração com Van Loo na
restauração dos afrescos da Galeria de Ulisses em
Fontainebleau, aceita a contragosto, pode estar relacionada com
uma ampliação do âmbito de interesses do
artista, que passa a incorporar desde então pinturas de
gênero. Como na natureza-morta, a qual não
cessará de dedicar o essencial de seu gênio, Chardin
não faz à pintura de gênero nenhuma
concessão a qualquer efeito de aparato, de virtuosismo ou
de sentimentalismo, em suma, a qualquer efeito exterior. Seu
rigor na construção da luz só pode ser, e o
foi mais de uma vez, aproximado ao de Vermeer, enquanto a
densidade psicológica e a introspecção de
seus personagens nada deve ao precedente dos Le Nain, aos quais
Chardin acrescenta uma compreensão mais empática da
personagem. A presença de naturezas-mortas em quadros de
gênero, como é o caso do retrato do pequeno Auguste
Gabriel Godefroy, do Louvre e do Masp, com sua arquitetura
composta pelos livros, tinteiro, pena de ganso e cilindro de
papel, comunica às personagens algo de seu construtivismo
e empresta uma singular objetividade às pinturas de
gênero de Chardin. Criador de uma das mais "abstratas"
pinturas da história da arte, Chardin foi considerado pelo
genial crítico de arte, Diderot, um artista "iluminista",
intérprete do emergente universo do Terceiro Estado.
Texto extraído do
Catálogo do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand:Arte da Península...
Coordenação geral: Luiz Marques
São Paulo:Ed Prêmio, 1998.