A cabeça da direita, a única cuja fisionomia é visível, é de difícil identificação. Segundo Camesasca (1987, p. 56) poderia ser do mesmo modelo, o advogado de defesa, que se vê em um outro quadro de c. 1855 (coleção Stokvis, Genebra) ou o médico nas duas versões do Malade (Imaginaire) dos anos 1862-1863 (Barnes Foundation, Merion; Museum of Art, Filadélfia), ou ainda uma das figuras dos Saltimbancos à Mesa, de c. 1865 coleção Simon, Fullerton).
Conforme aventa J. Adhémar (1954), hipótese acolhida por Camesasca (1987, p. 176), a obra pode ser identificada com o n.45 ou n.47 da exposição de 98 trabalhos de Daumier, promovida em 1878 pela Galerie Durand-Ruel de Paris. A mostra, presidida por Victor Hugo, era uma iniciativa dos amigos para socorrer o artista, então com a vista abalada e em dificuldades financeiras.
Tratando-se de fato de uma destas duas obras, a pequena tela do MASP dataria de 1860 aproximadamente, data que de qualquer modo parece confirmar-se por razões estilísticas. Incluída no projeto da grande exposição Daumier de 1961 na Tate Gallery de Londres, não foi, contudo enviada, conforme documentação do Masp.
Daumier é um pintor pleno nesta obra, além do mais dotado de uma radicalidade de meios expressivos sem par em sua geração. Único herdeiro da última poética de Goya, Daumier é capaz de imprimir, no revolver-se caótico da lama luminosa, a estampa do trágico.
Baudelaire, em Vers pour le potrait d’Honoré Daumier, de 1857 (?), apresenta suas principais idéias sobre o caricaturista Daumier. Em seus comentários sobre o Salon de 1845, destruídos mais tarde pelo poeta, Baudelaire saúda Daumier como um desenhista pleno e de espírito análogo ao de Delacroix: "Não conhecemos, em Paris, senão dois homens que desenham tão bem quanto Delacroix, um de uma maneira análoga, outro com um método contrário. O primeiro é o Sr. Daumier, o caricaturista; o segundo o Sr. Ingres, o adorador ardiloso de Rafael".
Contudo, o retrato mais generoso, preciso e apaixonado de Daumier será aquele traçado por Baudelaire em Quelques caricaturistes français, publicado em 1857, retrato cujo elã entusiástico mantém-se inalterado ao longo de dez páginas e que se inicia da seguinte maneira: "Quero falar agora sobre um dos homens mais importantes, não direi somente da caricatura, mas da arte moderna, sobre um homem que, todas as manhãs, diverte a população parisiense, que, dia a dia, satisfaz as necessidades de alegria pública e lhe dá seu alimento. O burguês, o homem de negócios, a criança, a mulher riem e passam freqüentemente, ingratos!, sem olhar seu nome. Até agora, apenas os artistas compreenderam quanto há de sério e de matéria de estudo nesta obra. Adivinha-se que se trata de Daumier".
Escultor, litografista e pintor, Honoré Daumier é filho de um pintor de vitrais que se transfere em 1816 para Paris, convencido de que devia tentar sua fortuna como literato. Com apenas oito anos de idade, Honoré conheceria a cidade que se tornaria seu universo e da qual seria um impiedoso intérprete.
Após trabalhar como menino de recados em um escritório de advocacia, inicia, em 1822, seu aprendizado como pintor no ateliê de Marie-Alexandre Lenoir (1762-1839), retratista, discípulo de Doyen e sobretudo importante arqueólogo e conservador, a quem se deve a salvaguarda de muitas obras-primas da história da arte, inclusive os Escravos de Michelangelo, no Louvre. Embora a convivência entre os dois artistas não tenha sido longa, pois Daumier logo viria a se ligar à Academie Suisse, freqüentemente atribui-se à enorme cultura visual de Lenoir as afinidades profundas de Daumier com Rubens e Tiziano. Na Academie Suisse, inicia-se na litografia com Belliard a aprende a agilidade do traço fisionômico com Toussaint Charlet, predecessor de Daumier.
A carreira de Daumier, como caricaturista e como artista plástico, ocorre sob o signo de incoercível engajamento político republicano e de uma consciência social que lhe valem diversas prisões durante o governo de Luís Felipe, sobretudo em decorrência de sua atividade de caricaturista para Charles Philippon. Daumier é um feroz analista do mundo do poder, dotado, nas palavras de Baudelaire, de uma "memória profunda" da fisionomia humana. Por memória profunda entenda-se uma sensibilidade não confinada à construção de uma personagem, mas de um tipo, na acepção universal do termo. A série de 41 figurinhas em papier maché de 1832, hoje conservada no Musée d’Orsay, constitui uma expedição fulminante às atitudes vis, equivalente, por sua agudeza e penetração à Comédia Humana de Balzac. Após 1848, Daumier dedica-se progressivamente à pintura, avizinhando-se, inclusive por razões ideológicas, de Barbizon, Corot, de quem é amigo, de Rousseau e Millet.
As duas obras do MASP, ambas de sua fase mais madura, são momentos característicos do impulso de Daumier em direção a um romantismo impregnado pelas aspirações revolucionárias de 1848.
Roteiro visual para a aula DAUMIER - roteiro-aula-out07.doc