A Obra
Kenneth Clark afirma que "todos aqueles que escreveram sobre Renoir lembram sua adoração pelo corpo da mulher e citam o próprio artista, dizendo que teria sido difícil para ele dedicar-se à pintura sem essa adoração. Mas são raros, nas pinturas que ele realizou antes dos 40 anos, os nus femininos". O quadro do MASP seria o primeiro de que se tem notícia. Lise Tréhot, que Renoir conheceu em 1865, e que foi sua modelo preferida até 1872, também posou para esse trabalho (Camesasca 1989, p. 137), no qual Renoir evoca as Banhistas de Courbet (1853, Montpellier, Musée Fabre) e no qual é perceptível a influência do mestre na figura à direita, uma citação das Moças à Beira do Sena (Petit-Palais, Paris 1857). A pintura exposta no Salon de 1870, onde recebeu críticas negativas de Goujon, Duranty e Mezin. O caricaturista dArnoux, também conhecido por Bertall, reelaborou-a ironicamente em registro pornográfico. Na exposição, Renoir foi apreciado mais pelo quadro intitulado As Mulheres de Argel (Washington, National Gallery), realizado em homenagem a Delacroix. Chaumelin julgou ver na Banhista uma caricatura da Vênus de Medici (Florença, Uffizi), enquanto Reinach nota as afinidades com a Vênus de Cnido (Roma, Musei Vaticani), que Renoir deve ter tido a oportunidade de conhecer através de cópias e que reproduziu numa pose invertida.
O Artista
Nascido em uma família de artesãos, começou a trabalhar com pouco mais de 13 anos como pintor de porcelanas no ateliê parisiense dos irmãos Léug, passando depois a realizar decorações em tecidos e leques.
Em 1862, matriculou-se na École des Beaux-Arts e freqüentou o ateliê de Marc-Gabriel Gleyre, onde se tornou amigo de Monet e Sisley e onde encontrou o paisagista Diaz, que lhe sugeriu o uso de uma paleta mais clara e da pintura em plein-air. Nas primeiras obras de Renoir, nota-se a influência de Courbet, mas já no quadro Lise (1867, Essen, Folkwang Museum), Renoir adota uma técnica impressionista, com uso de sombras coloridas nas roupas e na paisagem. Em 1874, participou da famosa exposição no ateliê do fotógrafo Nadar com a tela O Camarote (Londres, Courtauld Institute), considerada uma das obras mais perfeitas dessa primeira fase. Paisagista tão talentoso quanto seus amigos Monet e Sisley, Renoir foi insuperável na representação das figuras femininas, em particular dos nus, nos quais a luz dourada modela as formas. Os temas preferidos do pintor são aqueles da vida na grande cidade moderna, como em Le Moulin de la Galette (1876, Paris, Musée dOrsay) e nos Guarda-chuvas (Londres, National Gallery), obras fundamentais do impressionismo, que fixam momentos da vida parisiense com um olhar imediato e com uma técnica nova baseada na pesquisa da fotografia.
Em 1881, a vontade constante de renovar-se induziu-o a viajar à Itália, onde o estudo de Rafael e da pintura antiga em Pompéia revelaram-lhe o valor da composição. Como o próprio Renoir admitiu, atravessou, então, uma fase de crise, visível em obras como As Banhistas (1884-1887, Filadélfia, Museum of Art), em particular nas poses meditativas das modelos. Ao findar do século, Renoir padece de grave doença reumática que o tornará inválido, mas o mal, como ele disse, favoreceu-o, tornando o trabalho um verdadeiro consolo. Não deixou de pintar nem mesmo quando a doença atingiu as mãos; com os pincéis atados aos dedos, continuou trabalhando até a morte. O estudo da pintura italiana e do classicismo levou Renoir, nos últimos vinte anos de sua vida, a aproximar-se de Rubens e das últimas obras de Tiziano, caracterizadas por cores vivas e pelas formas indefinidas. Os seus nus não serão mais aqueles das mulheres do povo de Paris, mas de deusas sensuais e monumentais, de corpos poderosos, criaturas de um Olimpo gerado por uma fantasia moderna, expressões de uma feminilidade misteriosamente arcaica (O Julgamento de Páris, 1915, Germantown, Pennsylvania, McIlhenny Collection). Nessa última etapa de sua vida, Renoir dedicou-se também à escultura e suas concepções foram realizadas, sobretudo pelo escultor Richard Guino, contratado pelo marchand Ambroise Vollard (Vênus Vencedora, 1916, São Paulo, Masp).
Luciano Migliaccio
Texto extraído do
Catálogo do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand: Arte Francesa
Coordenação geral: Luiz Marques
São Paulo, Editora Prêmio, 1998.