SERVIÇO EDUCATIVO,

ASSESSORIA AO PROFESSOR

Aula do Mês - Setembro de 2008

JEAN-HONORÉ-FRAGONARD
Grasse, 1732 - Paris, 1806




A Educação Faz Tudo
Óleo sobre tela, 55,5 x 66 cm, 1775-1780.
Acervo do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand MASP.

A Obra

A cena situada em um interior rústico, com espigas de milho penduradas para secar, mostra uma jovem vista por trás, acocorada, exercitando dois cães fraldiqueiros para divertir várias crianças. O cão maior tem um chapéu negro de abas largas, o outro, com um pano vermelho à guisa de manta, sustenta uma longa planta de milho entre as patas. O segundo dono do quadro, o gravador Delaunay, reproduziu-o, com o título atual, junto com outra obra de Fragonard, O Pequeno Pregador, numa gravura anunciada pelo Journal de Paris (1791, p. 4) e pelo Mercure de France (1791, pp. 83-4) e exposta no Salon daquele ano (1791, n.538). Mais tarde, as duas cenas foram gravadas também por B. Eredi (1750-1812) e por G. B. Cecchi, talvez em Florença, e dedicadas respectivamente a Giuseppe Rucellai e ao barão Ricasoli. As gravuras de Delaunay derivam das pinturas definitivas e não dos desenhos, que talvez tenham sido feitos como estudos intitulados A Educação (Aylesburg, Waddesdon Manor) e O Pregador (Los Angeles, Armand Hammer Foundation), dadas as muitas diferenças existentes entre esses desenhos e as telas.

O fato dos dois quadros terem as mesmas dimensões, das duas telas terem pertencido ao mesmo dono, passando de Aubert a Delaunay e ao conde Stroganoff, além do fato de ambas terem sido copiadas por Delaunay, por Eredi e por Cecchi, tudo isso leva a crer que os dois quadros estivessem associados desde a sua origem. São apesar disso escassas as afinidades entre as duas composições, concebidas como pendants, o que está de acordo com os hábitos de Fragonard. Um outro desenho apresentado como autógrafo do artista num leilão em Versalhes (19/11/1972, n. 29) suscita alguma reticência (Rosemberg 1987, n. 226). No que diz respeito à iconografia, Rosemberg assim define a atitude do pintor em relação aos jovens modelos: "Menos sensível ao lado serio das crianças do que Chardin, pouco interessado na sua educação moral, ao contrário de Greuze, Fragonard descreve suas maravilhas e suas jóias com uma comunicativa simpatia".

Com efeito, entre uma pintura moralmente séria e o prazer de sugerir aos nossos olhos um instante da magia das cores, Fragonard não hesita em escolher esse último. A entrada da luz na tela, incandescendo as costas da amestradora, cria uma perspectiva luminosa que se torna a verdadeira protagonista do quadro, iluminando com ironia magistral os dois cachorros, que simulam os heróis dos quadros históricos e dos antepassados que mofam nas molduras douradas dos palácios. Sem querer ver nesse quadro uma verdadeira sátira da aristocracia, é preciso lembrara que Fragonard aderiu à maçonaria, e parece evidente, pelo menos na escolha do título da obra por parte do gravador, quando o artista estava ainda vivo, uma referência à querela sobre os efeitos do nascimento e da educação, contra o luxo, presente na polêmica dos philosophes naquela época.

A reprodução em gravura, que não deve ter ocorrido sem o consentimento do artista, dois anos após a Revolução de 1789, indica como essa iconografia podia ser lida pelo público burguês. Fragonard revela sua admiração pela pintura holandesa, em particular por Frans Hals. Vistos pelos olhos cínicos do pintor holandês, os jovens inseguros e elegantes e os velhos capitães viciosos não se assemelham por acaso a fraldiqueiros e mastins? Dos holandeses e da paleta dos venezianos, Fragonard extrai sua técnica feita de pinceladas rápidas que revelam o gesto do artista, na qual "o pincel justapõe sem fundi-los, o cinabre, o azul-da-prússia, o amarelo-de-cromo para criar a luz, a sombra e o reflexo de um braço..." (Goncourt 1914, p. 332). O abade de Saint-Non define o impacto desse estilo com propriedade: "O senhor Fragonard é todo de fogo".

O Artista

Fragonard estreou com temas de gênero galante e frívolo, inspirados na pintura de Boucher (A Cabra Cega, Toledo, Ohio, Museum of Art), revelando, ao mesmo tempo, a admiração do artista pelas obras de Chardin e de Charles Van Loo. De 1756 a 1761, em Roma, estudou os pintores barrocos, como Pietro da Cortona, e a paisagens italiana, que representou em desenhos importantes para os desdobramentos posteriores de sua arte (Os Jardins de Villa d'Este, Londres, Wallace Collection). Em busca de novas experiências Fragonard viajou pelos Países Baixos, introduzindo na sua pintura cenas pastoris inspiradas em Jan Van Ruysdael.

Mas foram, sobretudo as obras de Rembrandt e de Frans Hals que o impressionaram, sendo derivações delas os ousados efeitos de luz, a pincelada livre e a facilidade de toque que renovou seu estilo a partir de 1770. Na década anterior, tornara-se famoso principalmente por cenas alegres e picantes, destinado a um público citadino. Nesses quadros existe um componente erótico e uma sensualidade que se traduzem numa maior liberdade da técnica pictórica, por meio do uso de cores vivas e timbres rosados ou lúcidos como pérolas. (A Camisa Tirada, Paris, Louvre). Fragonard inspirou-se também em Watteau, ao retomar os temas teatrais e as coreografias elegantes das fêtes galantes deste mestre.

Em 1771, por encomenda de Madame du Barry, realizou uma série de quadros para o pavilhão de Louveciennes, representando em quatro cenas o Amor Despertado no Coração de uma Moça. Mas Du Barry rejeitou-as, preferindo as obras de J.M. Vien, inspirador da nova pintura neoclássica. Apesar da mudança de gosto da aristocracia, Fragonard criou nesta década suas obras mais fascinantes, aproximando-se da realidade com uma renovada liberdade, sobretudo nos retratos. (O Ator, Paris, Louvre, Saint-Non, Barcelona, Museu), construídos com cortes oblíquos e animados por cores e toques vibrantes. Após 1780, Fragonard buscou atualizar na tendência neoclássica, dedicando-se ao idílico rústico e à representação da infância, um tema que começava a ganhar importância naquela época e que o pintor soube interpretar de forma elegante e irônica, livre dos excessos moralizantes.

Luciano Migliaccio

Texto extraído do
Catálogo do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand: Arte Francesa
Coordenação geral: Luiz Marques
São Paulo, Editora Prêmio, 1998.

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